segunda-feira, 4 de novembro de 2013

MULHERES-MULA FAZEM TRANSPORTE DE CARGA ENTRE ESPANHA E MARROCOS






'Mulheres-mula' fazem transporte de carga entre Espanha e Marrocos (© Fernando del Berro)
Elas são conhecidas como as 'mulheres-mulas de Melilla'. São mulheres que, todos os dias, carregam cargas pesadas através da fronteira entre o enclave espanhol e o Marrocos.
Melilla, pequeno território encravado na costa norte do Marrocos, é um importante ponto de entrada de produtos no norte da África.
Produtos que entram sendo carregados por uma única pessoa são classificados como bagagem pessoal, e entram isentos de taxa alfandegária. Daí o surgimento da atividade, que virou o ganha-pão de várias mulheres marroquinas sem outra alternativa de renda.
Na luz do sol da manhã, há uma nuvem de poeira próxima a grade de cerca de 6 metros de altura que separa Melilla do Marrocos. A poeira sobe com a atividade frenética dos comerciantes preparando mercadorias para cruzar a fronteira.
Há roupas de segunda mão, rolos de tecido, produtos de higiene e utensílios domésticos, tudo vindo da Espanha e destinado à mercados no Marrocos e além. Há milhares de pessoas aqui e o barulho é ensurdecedor - uma cacofonia de motores acelerando e vozes.
Fardos enormes estão por toda parte, todos embrulhados em papelão e pano presos com fita adesiva e corda. E sob os imensos fardos, escondidas e encurvadas pelo tamanho de suas cargas, estão as mulheres marroquinas, as 'mulheres-mula' de Melilla, conhecidas localmente como porteadoras.
Mães solteiras
Esse comércio ocorre todos os dias no Barrio Chino, na fronteira entre Melilla e o Marrocos, por onde só passam pedestres. As 'mulheres-mulas' têm o direito de visitar Melilla porque vivem na província marroquina vizinha de Nador, mas não podem residir no território espanhol.
Latifa reivindica seu lugar em uma das turbulentas filas compostas por centenas de mulheres, e deixa cair sua carga de 60 kg de roupas usadas. Ela vem fazendo este trabalho há 24 anos e será paga três euros (R$ 9) para o transporte de seu fardo até o Marrocos. Mas este não é um trabalho que ela escolhe fazer.
'Eu tenho uma família que precisa comer,' ela explica. 'Eu tenho quatro filhos, e não tenho um marido para ajudar. Eu me divorciei porque ele batia em mim.'
E então, a fila anda e Latifa desaparece em um mar de mercadorias.
Muitas das mulheres que trabalham como porteadoras são divorciadas ou separadas, como Latifa, mães solteiras que têm que prover para suas famílias. A vida na sociedade tradicional do Marrocos é difícil para essas mulheres, e geralmente esse é o único trabalho que elas conseguem. Algumas delas fazem três ou quatro viagens por dia através da fronteira, carregando até 80kg.
As remunerações variam, e as mulheres reclamam que precisam pagar propina a guardas do Marrocos.
Veja mapa (© BBC)
Debate
Em Melilla, há um debate sobre se este tipo de comércio deveria ser coibido.
'Essas são mulheres que estão arriscando suas vidas. Houveram mortes em consequência desse tipo de trabalho físico com condições de semiescravidão,' diz Emilio Guerra, do partido político Union Progresso y Democracia. 'O que nós gostaríamos é que elas trabalhassem sob condições que não fossem precárias.'
Por fim, ele acredita que Melilla deve mudar seu modelo econômico, e se tornar menos dependente no comércio.
Porém o consultor de negócios para o governo local de Melilla, Jose Maria Lopez, discorda.
'Há resultados muito positivos dessa atividade comercial. Para algumas das porteadoras é a única chance que elas têm de ganhar a vida. De fato, é realmente um trabalho árduo, mas algumas delas conseguem uma renda que é maior do que o rendimento médio dos trabalhadores no Marrocos.'
E os benefícios desse tipo de comércio para milhares de outros marroquinos e suas famílias, aqueles que vendem os produtos em suas lojas, ou exportam para outros países ao sul, são enormes.
Lopes estima que esse comércio informal gere cerca de 300 milhões de euros por ano para Melilla, e diz ser algo 'atípico'. Outros chamam de contrabando, e acreditam que a atividade gere o dobro desse valor.
Concorrência
De volta ao Barrio Chino, há uma sensação de semi-histeria no ar. Os portões fecham ao meio-dia, e as mulheres correm contra o tempo para entregar a carga no Marrocos e retornar para a próxima remessa.
'Está um pouco mais calmo hoje', diz Arturo Ortega, um oficial com a Guarda Civil encarregado de manter a ordem e impedir avalanches humanas que geram sérios riscos à porteadoras.
'Se você vier aqui todos os dias, você começa a pensar que o que você vê é normal. Mas não é normal.'
Hasna está encostada em uma grade, sem qualquer pacote. Na frente dela está uma multidão de homens jovens, todos eles carregados.
'Os homens estão tomando nossos lugares', ela reclama. Tradicionalmente, os portadores têm sido as mulheres. Agora, elas enfrentam a concorrência dos homens desempregados marroquinos, e Hasna está tendo dificuldade em atravessar a multidão para pegar seu fardo.
Ela tem um filho e um marido doente. E está grávida de seis meses. Mas isso não a impede de trabalhar.
'Se eu fizer uma viagem hoje, eu vou ser paga cinco ou seis euros', diz ela. 'Se eu pudesse encontrar outro emprego limpando casas ou cozinhando, eu não estaria fazendo isso. Mas, no momento, não há nenhum outro trabalho.'
Indignação
Quem observa os homens também é Maria. Ela se destaca porque está apoiada em uma muleta.
Maria, diferente da maioria das porteadoras, fala um pouco de espanhol. Ela explica que feriu a perna quando caiu na fila - ela também teve um tumor na mama. Maria esteve aqui durante toda a manhã, mas com o caos no Barrio Chino, ela não se sente bem o suficiente para trabalhar. Hoje, ela vai voltar para casa sem ganhar nenhum dinheiro.
Maria vive do outro lado da fronteira de Melilla, em Beni Enzar. Ela tem dois quartos que divide com suas três filhas. Não há água corrente - um vizinho deixa ela usar uma torneira em sua casa.
Maria era casada e trabalhava como garçonete. Mas há quatro anos, sua vida começou a se desfazer. Depois de ter sido diagnosticada com câncer, o marido a deixou. Na época, Maria estava grávida de sua filha mais nova, Malak.
'O médico disse que eu iria perder o bebê com o tratamento, mas ela nasceu viva. É por isso que eu dei o nome de Malak, que significa anjo.'
Enquanto Maria fala, suas duas filhas mais velhas escutam. Nenhuma está na escola - elas ficam em casa para cuidar de sua irmã mais nova enquanto a mãe está no Barrio Chino. Elas se preocupam com a mãe.
'Esta não é a primeira vez que ela machucou a perna, e o médico disse que ela não deve levar nada pesado', diz Ikram de 16 anos. 'Ela só trabalha como porteadora para que possamos comer.'
Maria está indignada com a ideia de que suas filhas podem ser forçadas a se tornarem porteadoras também. 'Seria melhor para elas casarem', diz ela. 'É um trabalho perigoso e não há dignidade. Odeio esse trabalho, mas eu preciso dele.'
E então Sanaa, de 13 anos, coloca um pequeno skate sobre a mesa. Maria sorri. Essa prancha de madeira com rodinhas vai ajudá-la a carregar a mercadoria mais facilmente em suas viagens de Barrio Chino através da fronteira.
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UMA HISTÓRIA SINGULAR: UM MENINO RICO E UM MENINO POBRE

Uma história singular:O menino rico e o menino pobre

Situações que persistem num Brasil ainda desigual





Davison Coutinho*


Apenas 10 anos de diferença e um mundo de contrastes separam a história e o destino de um menino pobre e um menino rico. O segundo teve de tudo do bom e do melhor, estudou nas melhores escolas, se formou na Alemanha e aprendeu diversos idiomas às custas do pai que ganhou muito dinheiro fazendo obras megalomaníacas pagas pelo trabalhador brasileiro. O menino rico aprendeu com a cabeça megalomaníaca do pai que o incentivou a ficar bilionário as custas do estado. Fez obras com dinheiro público, inclusive com financiamento do BNDES, e era admirado pelo pai que o considerava um verdadeiro gênio.
Por outro lado, um menino, preto, pobre e criado na favela, de uma família de muitos irmãos e de muita pobreza contava com a sorte para sobreviver num lugar perigoso e dominado pelo crime e pela miséria.
O menino rico era apoiado pelo governo e pelos políticos, explorou petróleo, teve concessão do estado para ganhar dinheiro, fez fortuna, ficou famoso e chegou a afirmar que seria o homem mais rico do mundo.
Já o menino pobre, não pode estudar, teve que trabalhar desde cedo para sobreviver, foi criado por sua irmã, a quem considerava mãe, cresceu e formou sua família. Sete filhos e sua esposa, moravam em um cubículo sem banheiro, sem ventilação, um local insalubre e sem condições de moradia, onde dividiam o pouco que conseguiam para sobreviver.
Hoje, vemos que o menino rico que queria ser o homem mais rico do mundo, conseguiu tudo com dinheiro do povo brasileiro, investimentos eram feitos e todos acreditam que ele era bom para o pais. No entanto, todo esse dinheiro era nosso, era do povo trabalhador.
Já o menino pobre, voltava de mais um dia de trabalho quando foi abordado por policiais militares, foi torturado covardemente até a morte e sumiram com seu corpo. Deixou uma grande família que necessitava desse pai, mas acabaram numa situação ainda mais difícil e não puderem nem ao menos se despedir pela última vez enterrando seu corpo.
Agora, o menino rico e gênio, quer que o estado pague por sua recuperação após ir à bancarrota e ainda por cima dar o maior calote nos credores, só com o dinheiro que tomou do BNDES poderiam ser construídas milhares de casas para famílias como a do menino pobre, que morava na favela da Rocinha.
Enquanto nas favelas, vários filhos de Amarildos procuram seus pais para oferecer ao menos um enterro digno, filhos de bacana se mantém no luxo, estudando no exterior e estão no poder às custas do povo brasileiro que sustenta esses sanguessugas que apodrecem nossa sociedade e são apoiados pela elite.


*Davison Coutinho, 23 anos, morador da Rocinha desde o nascimento. Formando emdesenho industrial pela PUC-Rio, membro da comissão de moradores da Rocinha, Vidigal e Chácara do Céu, professor, escritor, designer e liderança comunitária na Comunidade, funcionário da PUC-Rio.

domingo, 3 de novembro de 2013

A QUARTA DIMENSÃO

 

universo natural  a atendimento a a a 4 dimensIsto tudo é muito claro: existe um Espírito em nós, uma Chispa divina que denominamos o Cristo, que nos eleva à Quarta Dimensão da vida – a um estado de Consciência em que não mais vivemos pelos esforços pessoais, pela sabedoria, pelo poder ou pela saúde pessoais – no qual somos investidos de um Poder que nos vem de dentro do Reino de nosso próprio ser.
Novamente repito: há um nível que atingimos neste mundo, em que já não vivemos a própria vida, senão que o Infinito Invisível a vive por nós, precedendo-nos no Caminho e solucionando tudo. Ele nos acompanha como a Fonte e a atividade de nossa vida diária, revelando-Se como água, maná, alimento, proteção, segurança e saúde. E ainda que o templo de nosso corpo ou o nosso lar fossem destruídos e nossos negócios desfeitos, esse Infinito Invisível os reconstruiria rapidamente, “restituindo os anos que foram consumidos pelo gafanhoto”.
Mesmo que defrontemos dificuldades, temores e discórdias – servirão para mostrar ao mundo que dentro de nós há um poder que supera as vicissitudes e tentações: “Maior é Aquele que está em mim, do que o que está no mundo”.
Pois bem, neste exaltado estado de Consciência Crística, avançamos sem barreira material, sem impedimentos físicos, emocionais, mentais ou financeiros. Em tal estado de Consciência divina, que é o Céu, as realidades do mundo de Deus se nos tornam tão reais quanto o plano sensorial, porque as limitações dos sentidos se desvaneceram.
Aos poucos, vamos entendendo que esta Presença e Poder são atemporais, pois, independentemente de quando se revelem à nossa Consciência, em verdade sempre existiram dentro de nós, sem que o soubéssemos. Em outras palavras, embora este Infinito Invisível esteja conosco agora, só chegará a ser marcantemente real e poderoso em nossa experiência – como o foi para os profetas hebreus e aos cristãos iluminados de outras épocas – através do desenvolvimento da Verdade em nossa Consciência; através da conscientização da Verdade em nossa Consciência; através da atividade da Verdade em nossa Consciência.
Agora dediquemos um momento à natureza ou função deste Poder que chamamos o Cristo. O Cristo é a atividade, a substância e a lei invisível de tudo quanto aparece como efeito. É por isso que não devemos deixar-nos hipnotizar pelas aparências. Com isso quero dizer que, se humanamente temos saúde ou riqueza, isso não significa havermos alcançado a imortalidade, a segurança. Mesmo que tenhamos um refúgio antiatômico na montanha, não pensemos haver encontrado segurança. Não ponhamos nossa fé ou dependência em nada, em nenhum efeito, em nenhuma pessoa. Doutra parte, não tenhamos temor ao pecado, à enfermidade ou à carência. Eles não têm poder nenhum. “Ainda que eu tenha de atravessar o vale das sombras da morte, não receio mal algum, porque Tu estás comigo”.
Ao encarar as condições humanas do bem e do mal aparentes, lembremo-nos sempre de tomar consciência de que todo efeito espiritual, harmonioso, é produzido pela atividade do Cristo. A atividade do Cristo manterá e sustentará todos os acontecimentos e experiências felizes e harmoniosas. Ainda que estes sejam momentaneamente perturbados ou destruídos, não nos deixemos alarmar. Não nos preocupemos com os órgãos ou funções de nosso corpo, nem pela situação econômica ou política, posto que a atividade do Cristo é a lei de Ressurreição de tudo isso.
O propósito de nosso Ministério Espiritual é o de nos elevar à Quarta Dimensão, onde não mais vivemos de efeitos, nem só de pão, ou vitaminas ou sais minerais; onde vivemos mercê da atividade do Cristo, do Infinito Invisível. Nesta Quarta Dimensão da vida, que é Consciência Espiritual, todo efeito que surgir em nossa experiência, será na medida de nossa necessidade, para suprir-nos abundantemente.
Recordemos, sem lugar a dúvidas, que o Cristo é o fundamento, a lei ou o desabrochar de nossa experiência.
A Quarta Dimensão é esse estado de consciência em que toda a nossa confiança, fé, dependência e compreensão estão firmadas no Infinito Invisível, no Qual aprendemos a usufruir as conquistas do Espírito e as harmonias de viver diariamente na Graça.
Ainda que não O contemplemos com nossos olhos, sem dúvida alguma, na câmara secreta, interna, de nosso ser, descobriremos espiritualmente, em nossa meditação, a atividade do Cristo em nossa vida!

Joel Goldsmith

QUANDO SENTIR ENERGIA RUIM, NÃO TENHA MEDO. REAJA

 

-                                a  reajaSe você for uma pessoa sensível, já deve ter registrado a quantidade de energias negativas que estão à nossa volta. Elas nos envolvem de repente, provocando mal-estar, tendo ou não conhecimento do assunto. Os sintomas se repetem: corpo pesado, arrepios, sudorese, enjoo, sensação de desmaio, impressões penosas, medo de um perigo iminente e da morte.
O médico informa que você não tem nenhuma doença física. Essa certeza acalma, renova sua confiança na saúde mas não impede que esse mal-estar apareça de novo. Trata-se de um fenômeno natural e quem deseja evitá-lo precisa aprender a lidar com ele.
Muitos recorrem à ajuda dos grupos de terapia, aos centros espíritas. A sabedoria popular já troca informações sobre as causas dessa captação energética e os diversos meios de minimizá-la. Todos esses recursos são úteis de alguma forma, mas o que garante um sucesso maior é a educação do seu emocional, cujos pontos fracos atraem naturalmente energias afins.
As turbulências do mundo moderno, forçando mudanças na sociedade, acelerando o progresso tecnológico, encurtou distâncias, apressou o contato entre os países, que foram forçados a encarar suas diferenças culturais. A resistência de alguns torna difícil manter a paz. As guerras continuam ensanguentando o mundo.
O espírito de Lucius, meu amigo espiritual, conta que apesar do tempo decorrido, os hospitais do astral estão repletos de espíritos que viveram os horrores das guerras, carregando sequelas que apesar do tratamento ainda não conseguiram se recuperar.
É preciso lembrar que uma guerra mundial, onde os bombardeios constantes ameaçam a população civil, induz ao imediatismo, faz com que as pessoas vivam com mais intensidade. Com homens na guerra, as mulheres foram obrigadas a assumir o trabalho deles e libertar-se dos conceitos antigos. A revolução dos costumes quebrou tabus, mudou conceitos. A hipocrisia da sociedade foi revelada e muitos perderam a noção do bem e se afundaram nos exageros, resvalando para hábitos destrutivos. Hoje, colhem o resultado de suas escolhas, tanto no astral como na Terra.
Quem está sofrendo emite energias dolorosas onde quer que esteja. No astral ou na crosta terrestre, há espíritos vingativos, interferindo na vida das pessoas. Mas eles só atingem os que estão no negativismo. Quando sentir energia ruim, não tenha medo. Reaja. Reveja um momento de felicidade que teve, sinta sua alegria. Não dê força à maldade, fique no bem. Essa energia ruim não é sua. Mande-a embora com firmeza. Insista e sentirá alívio. Vacine-se contra esse mal. Você pode.
 
Zibia Gasparetto

POR QUE É DIFÍCIL ABRIR MÃO DAS EMOÇÕES NEGATIVAS

 

Por que é difícil abrir mão das emoções negativasPor que é difícil abrir mão das emoções negativas? Há mais de uma razão. Primeiro, as emoções negativas são a ponta do iceberg, portanto, toda vez que ficar zangado ou ansioso, por exemplo, há muito mais desses sentimentos guardados inconsciente. Segundo, a negatividade é pegajosa. Ela se agarra a nós tanto quanto nos agarramos a ela. Esse grude é um mecanismo de sobrevivência. Os sentimentos acham que têm o direito de existir. Assim como você, seus sentimentos justificam a existência deles. Oferecem motivos, constroem uma história convincente. No entanto, apesar de todas essas coisas, você pode se desprender da negatividade quando souber como.
O processo começa com o reconhecimento de seus sentimentos indesejados, trazendo-os à superfície. Você precisa se desprender de toda a negatividade. Há um ato de equilíbrio aqui, porque você quer assumir responsabilidade (“Isso é meu”), sem exagerar, e se identificar com sua negatividade (“Isso sou eu”). A negatividade não é você, uma vez que você conhece seu self verdadeiro. Portanto, considere qualquer reação negativa como se fosse uma alergia, ou uma gripe, algo que modifica sua situação apenas temporariamente. Uma alergia é sua, mas não é você.
A gripe o deixa infeliz, mas não significa que você está condenado a ser uma pessoa infeliz.
Quando encontrar meios de desfazer o grude da negatividade, será mais desprendido. As afirmações seguintes funcionam com esse intuito de desprendimento:
•          Posso passar por isso. Não vai durar para sempre.
•          Já me senti assim antes. Consigo lidar com isso.
•          Não me sentirei melhor descarregando em outra pessoa.
•          Ninguém jamais ganha no jogo de colocar a culpa no outro.
•          Extravasar acaba levando ao arrependimento e à culpa.
•          Posso ser paciente. Vejamos se consigo me acalmar em breve.
•          Não estou sozinho. Posso ligar para alguém que me ajude a passar por esse momento ruim.
•          Sou muito mais que meus sentimentos.
•          Os humores vão e vêm, até mesmo os piores.
•          Sei como me centrar.
Se conseguir transformar qualquer uma dessas afirmações em realidade, estará acrescentando-as às suas habilidades para lidar com a situação. Como fazer para torná-las realidade? Querendo que elas sejam reais. Você precisa ter a intenção de ser desprendido, centrado, paciente e alerta. Se tem essa intenção, automaticamente estará alinhado com o desprendimento. O oposto disso é estar tão preso que o grude e a negatividade aumentem. Isso ocorre quando você tem os seguintes pensamentos:
•          Sinto-me horrível. Não mereço isso. Por que eu?
•          Alguém vai pagar. Não provoquei isso para mim.
•          Em quem posso descarregar o que estou sentindo?
•          Isso está me deixando louco.
•          Ninguém pode me ajudar.
•          Como posso me distrair até esse sentimento passar?
•          Preciso da minha droga favorita para sair dessa situação.
•          Quando estou me sentindo tão mal assim, é melhor todo mundo se preparar.
•          Quero ser resgatado.
•          Alguém está me perseguindo.
•          Isso tem que ser resolvido agora mesmo.
•          Não posso evitar de me sentir desse jeito. Simplesmente fico desse jeito quando estou na adrenalina.
Percebo que “desprendimento” é um termo que as pessoas do Ocidente identificam com o fatalismo e a indiferença do Oriente. Portanto, faça desse o primeiro conceito a reformular de maneira positiva. Desprendimento não demonstra indiferença. Demonstra que você realmente não quer a negatividade grudada em você.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

QUE FALTA FAZ UM VOLTAIRE (Reynaldo Azevedo)


"O socialismo acabou, sim. Então vamos lá: ‘Abaixo o socialismo!’.
Porque ele sobreviveu nas mentalidades e ainda oprime o cérebro dos vivos com o peso de seus milhões de mortos. O século passado viu nascer e morrer esse delírio totalitário"

Falei outro dia a estudantes da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Um deles, militante socialista, antiimperialista, favorável ao bem, ao justo e ao belo, um verdadeiro amigo do povo (por alguma razão, ele acha que eu não sou), tentou esfregar Rousseau (1712-1778) na minha cara como exemplo de filósofo preocupado com o bem-estar do homem. "Justo esse suíço que não cuidava nem dos próprios filhos, entregando-os todos a asilos de crianças?", pensei. O sujeito amava demais a humanidade para alimentar as suas crias. "O que será que alguns mestres andam dizendo nas escolas?" Já participei de outros eventos assim. A expressão do momento, nas universidades, é resistir à "colonização promovida pelo mercado". A maioria silenciosa não dá bola pra essa besteira. A minoria barulhenta vai à guerra. O conceito é curioso porque faz supor que possamos ser caudatários, então, de uma cultura autóctone, de um nativismo pré-mercado ou de um tempo edênico em que o mundo não havia sido ainda corrompido.

A pauta de contestação varia pouco. Que importa se Israel é a única democracia do Oriente Médio? A justiça, sem matizes, estará sempre com os palestinos. O terrorismo islâmico assombra o planeta e obriga os regimes democráticos a uma vigilância que testa, muitas vezes, seus próprios fundamentos? A culpa cabe ao "fundamentalismo cristão" de George W. Bush, com sua "guerra ao terror". As Farc seqüestram e matam? É preciso eliminar a influência que os EUA exercem na América do Sul. O crime assombra a vida cotidiana dos brasileiros? O país precisa é de menos cadeias e mais escolas, como se fossem categorias permutáveis. Existe remédio para a tal "injustiça social"? Claro! Responda-se com a estatização dos pobres. A Terra está derretendo? É preciso pôr fim ao neoliberalismo. Sem contar os malefícios da imprensa burguesa...

Agora sei. É tudo culpa de Rousseau e do seu Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens. Quem melhor comentou a obra, numa cartinha enviada ao próprio autor, foi Voltaire (1694-1778), pensador francês: "Quando se lê o seu trabalho, dá vontade de andar sobre quatro patas". Este sabia das coisas. Descobriu a "força da grana – e da liberdade – que ergue e destrói coisas belas". Está claro nos textos de Cartas Inglesas. E, à diferença do outro, não dava muita pelota pra esse papo de "igualdade"
.
Algumas normalistas de meias três-quartos do articulismo pátrio diriam que Voltaire era um malcriado. Onde já se viu tratar daquele jeito um senhor que só pensava no bem da humanidade? Afinal, o que ele queria? Ora, todos cedemos um pouquinho aos interesses coletivos e seremos felizes. Não sou Voltaire: minhas ambições e meu nariz são menos proeminentes, mas noto o convite permanente para que passemos a nos deslocar sobre quatro patas. Na prática, o iluminismo anglo-saxão venceu: a força da grana erigiu cidades, catedrais, civilizações e fez vacinas. O discurso da igualdade, quando aplicado, produziu uma impressionante montanha de mortos. Mas vejam que coisa: é Rousseau quem está em toda parte, reciclado pela bobajada do marxismo, que tentou lhe emprestar o peso de uma ciência social.

O que isso quer dizer na história das mentalidades? O socialismo perdeu o grande confronto da economia e desabou sobre a cabeça dos utopistas, mas as esquerdas têm vencido a guerra da propaganda cultural, impondo a sua agenda, aqui e em toda parte. Dominam o debate público e, pasmem!, foram adotadas pelo capital. Estão incrustadas, como se sabe, nas universidades e nos aparelhos do estado, mas também nas grandes empresas, que financiam institutos culturais e ONGs dedicados a preservar as árvores, as baleias, as tartarugas, a arte e, às vezes, até as criancinhas. De quebra, também nos convidam a ser tolerantes com o que nos mata.

São todos, de fato, "progressistas", filhos bastardos do suíço vagabundo. Eu, um "reacionário", um tanto voltairiano, embora católico, pergunto aos meus botões: um banco não é mais "humanista" quando oferece crédito e spread baratos do que quando se propõe a salvar o planeta? Na propaganda da TV, a mineradora parece extrair do fundo da terra mais sentenças morais do que ferro, mais poesia e idéias de "igualdade" – esta droga perigosa – do que minério. Escondam o lucro! Ele continua a ser um anátema, um pecado social e uma evidência de mau-caratismo. O lucro leva pau até em roteiro de Telecurso 2º Grau. Aposto que boa parte dos nossos universitários, a pretensa elite intelectual brasileira, acredita que as vacinas nascem do desejo de servir, não da pesquisa financiada pela salvadora cupidez da indústria farmacêutica.

O socialismo acabou, sim. Então vamos lá: "Abaixo o socialismo!". Porque ele sobreviveu nas mentalidades e ainda oprime o cérebro dos vivos com o peso de seus milhões de mortos. O século passado viu nascer e morrer esse delírio totalitário. Seu marco anterior importante é a Revolução Francesa, mas sua consolidação se deu com a Revolução Russa de 1917, que ousou manipular a história como ciência da iluminação. A liberdade encontrou a sua tradução nos campos de trabalhos forçados, com a população de prisioneiros controlada por uma caderneta ensebada que o ditador soviético Josef Stalin (1879-1953) levava no bolso. A igualdade mostrou-se na face cinzenta da casta dos privilegiados do regime. A fraternidade converteu os homens em funcionários do partido prontos a delatar os "inimigos do estado e do povo". A utopia humanista vivida como pesadelo impôs-se pelo horror econômico e acabou derrotada pelo inimigo contra o qual se organizou: o mercado. Mas, curiosamente, sobreviveu como um alucinógeno cultural.

De que "socialismo" falo aqui? É claro que o modelo que se apresentava como "a" alternativa não-capitalista de organização da sociedade desapareceu. E a China é a prova mais evidente de sua falência – do modelo original, o país conservou apenas a ditadura do partido único. O livro O Fim da História e o Último Homem, do historiador americano Francis Fukuyama, já se tornou um clássico do registro desse malogro. Demonstrou-se a falência teórica e prática de um juízo sobre a história: aquele segundo o qual o macaco moral que fomos nos tempos da coleta primitiva encontraria o estágio final de sua sina evolutiva no bom selvagem socialista, de espinha ereta, pensamentos elevados e apetites controlados pela ética coletiva.

De fato, os donos das minas de carvão (que seres desprezíveis!), os mercadores cúpidos, os colonizadores e até seus sicários, toda essa gente acabou, mesmo sem saber, civilizando o mundo. Felizmente, o homem não é bom. A sociedade, por meio dos valores, é que ajuda a controlar os seus maus bofes. Estamos falando de duas visões distintas de mundo. Uma supõe uma religião em que o deus único é o estado; o bem alcançado é diretamente proporcional à redução do arbítrio individual: menos alternativas, menos probabilidade de erro. E a outra acolhe a vontade do sujeito como motor da transformação do mundo, respeitadas algumas regras básicas de convivência. Atenção: a democracia moderna nasce dessa vertente, não da outra, semente dos dois grandes totalitarismos do século passado: fascismo e comunismo.
É o modelo de proteção às liberdades individuais, sem as quais inexistem liberdades públicas, que nos faculta o direito de criticar o nosso próprio modelo. Não obstante, as causas influentes, reparem, piscam um olho ora para utopias regressivas, ora para teorias que nos convidam a entender os facínoras segundo a particularíssima visão de mundo dos... facínoras! É a forma que tomou a militância de esquerda, que nos convida a resistir à "colonização promovida pelo mercado".


Tomem cuidado com os militantes da "igualdade" e da "justiça social". Toda crença tem um livro de referência. Esta também. Além de ter sido escrito com o sangue de muitos milhões, só se pode lê-lo adequadamente sobre quatro patas

GRACILIANO, O GRANDE (Artigo de Reynaldo Azevedo)


"Vidas Secas poderia ser um romance de denúncia social,
eivado de proselitismo. Mas não. Graciliano Ramos repudiava
o chamado ‘engajamento’ na arte"

Evandro Teixeira
METÁFORAS QUENTES DE SOL
O sertão de Graciliano Ramos hoje, fotografado por Evandro Teixeira: mundo primitivo em linguagem culta e rigorosa
Graciliano Ramos (1892-1953) nunca foi vítima do preconceito organizado que existe contra o Monteiro Lobato para adultos, por exemplo. Sempre foi considerado entre os grandes escritores brasileiros. Mas há muito a crítica e a academia – esta em especial – negam-lhe o devido lugar no panteão da prosa modernista: o topo, onde segue embalsamado por certa mistificação o sem dúvida inventivo Guimarães Rosa. As razões que levam à superestimação de um concorrem para subestimar o outro.
Por que Graciliano agora? A Editora Record relança a sua obra, sob a supervisão de Wander Melo Miranda. Trata-se de um trabalho bem-cuidado, com a recuperação de textos originais, correções feitas pelo próprio escritor, cronologia e bibliografia de e sobre o autor de Vidas Secas – ou "Cyx Knbot" em búlgaro, uma das dezesseis línguas em que ele pode ser lido. O romance, que completa setenta anos, merece especial atenção: além da edição regular, há uma outra, limitada a 10.000 exemplares, no formato de um álbum, com capa dura e papel cuchê (208 páginas, 99 reais): cuidado à altura das belas fotos de Evandro Teixeira, que acompanham o texto. Sete décadas depois da publicação do livro, o fotógrafo refez o roteiro de Fabiano, sinhá Vitória, Baleia e os meninos.
Vidas Secas? É bastante conhecida uma das mais devastadoras passagens da literatura brasileira: as páginas em que Graciliano narra a agonia e morte da cadela Baleia. Fabiano, que vaga com a família pelo sertão, tangido pela seca, decide matá-la com um tiro para aliviar-lhe o sofrimento. Segue um trecho:

"A carga alcançou os quartos traseiros e inutilizou uma perna de Baleia (...) E, perdendo muito sangue, andou como gente, em dois pés, arrastando com dificuldade a parte posterior do corpo (...). Uma sede horrível queimava-lhe a garganta. Procurou ver as pernas e não as distinguiu: um nevoeiro impedia-lhe a visão. Pôs-se a latir e desejou morder Fabiano (...). Uma angústia apertou-lhe o pequeno coração. Precisava vigiar as cabras: àquela hora, cheiros de suçuarana deviam andar pelas ribanceiras, rondar as moitas afastadas (...). A tremura subia, deixava a barriga e chegava ao peito de Baleia (...). A pedra estava fria. Certamente sinhá Vitória tinha deixado o fogo apagar-se muito cedo. Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás (...) gordos, enormes".

Algumas das qualidades que fazem de Graciliano mestre da língua portuguesa e do texto literário estão acima condensadas. Vidas Secas, saído da pena de um escritor das Alagoas, de esquerda, poderia ser um romance de denúncia social, eivado de proselitismo e anseios libertários. Mas não. O autor repudiava o chamado "engajamento" na arte. Referia-se a Jdanov (1896-1948), o comissário da Cultura da URSS que fundara as bases do chamado realismo socialista, como o que era: "uma besta". Baleia é mais comoventemente miserável quando se arrasta sobre dois pés, quando "anda como gente". Ele não deprecia o homem, comparando-o ao cão; antes, hominiza o cão porque vê com compaixão a nossa condição – e essa compaixão inclemente pelo humano é marca da sua obra. Há dias, em passagem pelo Brasil, José Saramago declarou padecer de "marxismo hormonal". Segundo o escritor português, não merecemos a vida. Ele nos negaria um pedaço de osso. "Preás gordos, enormes", então, nem pensar.
Evandro Teixeira
REGIONALISMO SEM FOLCLORE
O homem do sertão, com seu cachorro, e Graciliano (à dir.): a condição humana expressa na agonia da cadela Baleia
O mundo da Baleia agonizante é primitivo, feito só de sentidos e sensações. Mas ele nos chega numa linguagem culta, fluente, rigorosa, sem charadas vocabulares para "desconstrução" em colóquios acadêmicos. Tanto em Vidas Secas como na obra de temática urbana, proto-existencialista – Graciliano traduziu A Peste, de Albert Camus, em 1950 –, os adjetivos e as imagens nascem das coisas. Como escrevi num ensaio que integra o livro Contra o Consenso, não há ali "uma única e miserável metáfora que não seja quente de sol (...), pulsante de sangue, aguda de espinhos, dura de pedra. Tudo nasce da matéria precária da vida". A face regionalista de sua literatura não folcloriza a realidade sertaneja, tentando atribuir-lhe alguma metafísica ou lógica interna superiores, que demandassem sintaxe e vocábulos de exceção. O estoque da língua e as regras do jogo lhe bastam. Como ele mesmo escreveu, "começamos oprimidos pela sintaxe e acabamos às voltas com a Delegacia de Ordem Política e Social, mas, nos estreitos limites a que nos coagem a gramática e a lei, ainda nos podemos mexer".
Atribuo-lhe características de meu gosto pessoal? Não! Era uma escolha consciente. Em 1949, envia uma carta a Marili Ramos, sua irmã. Ela acabara de publicar um conto chamado Mariana. A apreciação do leitor-irmão não tinha como ser mais severa. A tal carta resume um credo literário: "Julgo que você entrou num mau caminho. Expôs uma criatura simples, que lava roupa e faz renda, com as complicações interiores da menina habituada aos romances e ao colégio. As caboclas de nossa terra são meio selvagens (...). Como pode você adivinhar o que se passa na alma delas? Você não bate bilros nem lava roupa. (...) Você não é Mariana, não é da classe dela. Fique na sua classe. Apresente-se como é, nua, sem ocultar nada".
Em Graciliano, a literatura é um jogo da inteligência analítica, como neste trecho de Insônia: "Um silêncio grande envolve o mundo. Contudo, a voz que me aflige continua a mergulhar-me nos ouvidos, a apertar-me o pescoço. (...) explico a mim mesmo que o que me aperta o pescoço não é uma voz, é uma gravata". A conspiração das vozes do silêncio que perseguem o insone perdem imediatamente o encanto de uma maldição metafísica: basta afrouxar a gravata. Sabemos a origem das nossas aflições, o que não quer dizer que tenhamos respostas para elas. Com freqüência, não. E isso nos torna demasiadamente humanos. Não para o comunista Saramago, claro...
Essa lembrança me remete ao mais explicitamente político dos muitos Gracilianos, incluindo aquele que chegou até a ser prefeito da cidade de Palmeira dos Índios (1928-1930). Refiro-me ao livro Memórias do Cárcere, reeditado pela Record em um único volume. O escritor ficou preso entre março de 1936 e janeiro de 1937, acusado de ligações com a conspiração que resultara no levante comunista de 1935. Era mentira. Filiou-se ao PCB só em 1945. Nesse livro, publicado postumamente no ano de sua morte, ele se agiganta. Em muitos sentidos, a cadeia é a caatinga de um Graciliano-Fabiano que, à diferença do personagem de Vidas Secas, consegue se expressar com clareza. Em vez do herói da resistência, o anti-herói dos escrúpulos que comunistas chamariam pequeno-burgueses. Definitivamente, ele não era o "novo homem socialista". Era o velho homem apegado a suas dores privadas, a seus anseios, a suas mesquinharias. Leiam trecho do diálogo que ele trava com um militante comunista russo de nome Sérgio, que acabara de ser torturado. Graciliano pergunta se ele sente ódio:

"– Ódio? A quem?
– Aos indivíduos que o supliciaram, já se vê.
– Mas são instrumentos, sussurrou a criatura singular.
(...)
– Admitamos que o fascismo fosse pelos ares, rebentasse aí uma revolução dos diabos e nos convidassem para julgar sujeitos que nos tivessem flagelado ou mandado flagelar. Você estaria nesse júri? Teria serenidade para decidir?
– Por que não? Que tem a justiça com os meus casos particulares?
– Eu me daria por suspeito. Não esqueceria os açoites e a deformação dos pés. Se de nenhum modo pudesse esquivar-me, nem estudaria o processo: votaria talvez pela absolvição, com receio de não ser imparcial. (...) Fizemos boa camaradagem. Mas suponho que você não hesitaria em mandar-me para a forca se considerasse isto indispensável.
– Efectivamente, respondeu Sérgio carregando com força no c. Boa noite. Vou dormir. Estendeu-se na cama agreste, enfileirada com a minha junto ao muro, cruzou as mãos no peito. Ao cabo de um minuto ressonava leve, a boca descerrada a exibir os longos dentes irregulares. Nunca vi ninguém adormecer daquele jeito. Conversava abundante, sem cochilos nem bocejos; decidia repousar e entrava no sono imediatamente."

Como se vê, também os monstros morais podem ser torturados. Notem como Sérgio dorme tranqüilo, mesmo depois de supliciado, e com rapidez, o que espanta o observador. Está certo de seu senso de justiça como o crente em uma religião qualquer. Esquerdistas convictos nunca têm dúvidas. Já os personagens do autor de Insônia – a começar do próprio Graciliano em Memórias do Cárcere – não descansam nunca. Quando o brutal Paulo Honório, em São Bernardo, vê consumada a sua obra, restam-lhe a solidão e a insônia. O tema aparece em Angústia ("visões que me perseguiam naquelas noites compridas"), no autobiográfico Infância ("À noite o sono fugiu, não houve meio de agarrá-lo") e até nas suas cartas de amor. O homem de Graciliano vive em vigília, num ambiente sempre hostil, seja a caatinga, a cadeia ou as paisagens íntimas.
Falei de sua compaixão pelas dores humanas. Também nesse caso, seu horizonte não é finalista: não tem uma resposta para a nossa condição nem a vê com moralismo. Paulo Honório, por exemplo, acaba, na prática, matando quem tentara proteger: Madalena, a sua mulher. Tem ciúme da piedade que ela sente do mundo e ódio da sua própria incapacidade de se comover. Narrado em primeira pessoa, o romance não o caracteriza como um monstro. É só um ser desesperado tentando, como todos nós, sobreviver, salvar-se. Honório não é diferente da estabanada menina Luciana, do conto Minsk, nome do seu periquito. Um dia, numa de suas trapalhadas, ela pisa num objeto mole e ouve um grito. 

"Os movimentos de Minsk eram quase imperceptíveis; as penas amarelas, verdes, vermelhas, esmoreciam por detrás de um nevoeiro branco.
– Minsk!
A mancha pequena agitava-se de leve, tentava exprimir-se num beijo:
– Eh! eh!"

"Todo homem mata aquilo que ama", escreveu na cadeia o escritor irlandês Oscar Wilde (1854-1900). Por isso nos arrastamos, como Baleia, vida afora, em busca de perdão. Somos uns cães. Mas, ainda assim, dignos de amor. E cerraremos os olhos contando acordar felizes, num mundo "cheio de preás gordos, enormes".