domingo, 9 de março de 2014

SEIS IMAGENS DO CARNAVAL DO APARTHEID

por Cidinha da Silva para o Portal Áfricas

1- Carnaval do Apartheid

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Pesquisa divulgada recentemente no A Tarde constatou que 76% da população de Salvador não pula carnaval, e mesmo os 24% que pulam ficam espremidos entre tapumes e cordas de blocos. De um lado, viram-se aqueles que têm recursos curtindo a folia dentro dos camarotes; nos grandes blocos de trios fechados ao público, e do outro, o “povão” nas ruas disputando qualquer espaço, atrás dos trios elétricos, na base dos empurrões, da porrada e levando cacetadas da polícia a torto e a direito.
Por Hernani Francisco da Silva


2 - Ilha de brancos cercada por uma corda de negros
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Por todo o período de Carnaval, negro é o tom da corda, dos ambulantes que circulam aos milhares. É a cor do povo “Fora dos Blocos”, olhando das calçadas, pulsando ao som de altíssimos equipamentos que amplificam à exaustão as vozes dos “mitos” da passarela e aplaudindo os desfilantes dos Blocos, talvez, na sua expressiva maioria, descendências dos colonizadores de terras no passado, e agora, dos espaços antes livres para brincar e da alegria que vibra a cada passagem dos “latifundiários da folia”.


3 – Lutas de gladiadores” promovidas pelos foliões “descamisados”
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Alguns camarotes, por sua vez, são uma excrescência à parte. Com suas luxúrias eletrizantes, promovem festa VIP para uma clientela elitizada, em que a participação individual nesses eventos pode custar até R$ 1.000,00 a diária; além de servir como vitrine para promoção pessoal e verdadeiras “masturbações sociológicas”. Também servem como palcos privilegiados para assistir às cenas de “lutas de gladiadores” promovidas pelos foliões “descamisados” que, ao som dos trios elétricos, disputam aos tapas e empurrões o mínimo de direito para participar da festa.

4 – A cor do povo “Fora dos Blocos”

Carnaval de Salvador: “apartheid” e seletividade em uma ilha de brancos cercada por uma corda de negros e negras. No Carnaval, único tempo em que a minoria branca e rica predomina sobre uma cidade histórica e matematicamente negra. Os camarotes se tornaram onipresentes no Carnaval de Salvador e representam hoje o que o próprio Brown chamou o ano passado de apartheid da festa, juntamente com as cordas que separam o povo e os blocos dos grandes artistas da festa.


5 – Por todo o período de Carnaval, negro é o tom da corda
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“Nesse contexto, chama atenção a quem se dispõe a fazer uma leitura crítica do Carnaval de Salvador, o fato de que em nenhum outro momento a luta de classes se revela com tamanho vigor em nossa cidade”. Marília Lomanto Veloso - Promotora de Justiça da Bahia.


6 – Fica o Recado: Abaixe a corda NEGÃO  liberte-se da escravidão
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O Presidente de uma das mais tradicionais bandas da Bahia, João Jorge Rodrigues faz uma série de críticas sobre o carnaval. “É um Carnaval discriminatório, segregado, com mecanismos que reproduzem o capitalismo brasileiro: a grande exclusão da maioria em beneficio de uma minoria”, disse o líder do Olodum.

PARE DE CHORAR NEGRO! REAJA!


PARE DE CHORAR NEGRO! REAJA!

 Marcos |Romão


O neoliberalismo, os incentivos prometidos e a boa massagem da propaganda de que basta fazer o certo para chegar no lugar que se almeja.
Fez com que boa parte dos artistas, jogadores, intelectuais, jornalistas e tudo mais que é profissional negro e negra, até por bom tom junto aos novos patrões que “reconheciam” o seu valor, rejeitassem tudo que tivesse cheiro de organização antirracista, que cheirasse a nego reclamão e mau agradecido.
Afinal já tinham chegado no paraíso “por si mesmos.”
Formaram assim o que chamo de gerações de ”mulatos mentais”, sonho que nem o Gilberto Freire nem Monteiro Lobato teriam em seus sonhos de limpeza da raça.
Racismo era coisa do passado, era coisa de negro e negra dos 70.
A sociedade estava chegando no século XXI, já tinham seus notebooks e passagens aéreas à prestações, e os amigos brancos já tinham outra cabeça…eram todos não racistas, racismo era coisa do século XX.
As marolas da crises políticas, econômicas e sociais começaram a virar ondas no Brasil e para surpresa da garotada negra dos 10 aos 70 anos, voltamos ao Brasil do século XIX.

Da porta da delegacia ao STF negro leva cassete pela cor que carrega, é o fato.

A sociedade não racista era apenas um verniz, um santo de pau-oco a engabelar os “mulatos mentais”, enquanto a higienização e limpeza racial das cidades e dos campos aconteciam.
Milhares de jovens negros mortos à bala todos os anos, militarização dos bairros pobres que viraram guetos e discursos no parlamento, que repetem a velha cantilena que a culpa da crise são as migalhas dadas aos negros e aos índios.
O pau começou a cantar e não se sabe para onde correr. A organizações antirracistas desapareceram e a sociedade não sabe ou não quer lidar com o racismo do século XXI.
Minha esperança, lá venho eu de novo com minha impertinente esperança que não morre, é que esse verniz mental na cabeça dos negros seja apenas superficial e que despertem rapidamente a consciência, que não podem ser mais discriminados, presos ou eliminados como baratas.
Que reajam ao invés de só chorarem.
Temos direito às cidades e aos campos, chega de remoções e expulsões da maioria negra dos melhores pontos das cidades.

Temos direitos aos direitos. Temos direito a tudo!

Se não corrermos atrás ninguém irá fazê-lo por nós.





Fonte: Mamapress

DIVERSIDADE: JEAN WYLLYS RESPONDE RODRIGO CONSTANTINO

rodrigo constantino jean wyllys

Rodrigo Constantino e Jean Wyllys (Ilustração, Pragmatismo Político)

Por Jean Wyllys*

Em desenhos de super-heróis animados destinados às crianças, a vida é dividida de maneira simples e esquemática: há o Bem e o Mal; heróis e vilões: de um lado, Esqueleto; do outro He-Man, ou, de um lado, a Legião do Mal; do outro, a Liga da Justiça. Nesse esquema montado para estruturas cognitivas de uma criança em formação, o mundo é o cenário de uma guerra entre dois lados perfeitamente definidos, sem contradições nem interseções. Contudo, quando a gente cresce e começa a conhecer o mundo como ele é de fato, a vida se apresenta em sua complexidade e precisamos nos esforçar mais para compreendê-la fora do esquema simplista dos desenhos animados de nossa infância: é o que chamamos de amadurecimento. Há, no entanto, pessoas que, mesmo depois de adultas, continuam analisando o mundo com as estruturas cognitivas e emocionais de uma criança e, por isso, têm sérias dificuldades em lidar a complexidade da vida. É o caso de Rodriguinho, aquele colunista da revista marrom e enfant terrible que distrai a corte de reacionários brasileiros sem discernimento, mas com muita indigência intelectual. Em seu novo desabafo macartista, ele responde ao meu texto – “Desonestidade intelectual” – publicado nesta sexta-feira em O Globo, tentando enquadrar meu pensamento em seus esquemas infantis por não conseguir ir além: quem é o “bom” e quem o “mau”? Oriente ou Ocidente? Negros ou brancos? Gays ou héteros? Feijão preto ou o caviar?

Vou tentar ser didático e espero que dessa vez ele consiga compreender. E passarei ao largo de suas referências ao BBB, porque estas são frutos de sua inveja mal-disfarçada do sucesso alheio. Deve ser mesmo frustrante para alguém criado a Toddy e Ovomaltine em bairros nobres e formado em escolas papai-pagou-filhinho-passou ter de ver um gay assumido, mestiço, nordestino, sem apadrinhamentos nem capitanias hereditárias, vindo das camadas mais pobres da população na posição que eu ocupo hoje. Também não comentarei outras pérolas da estupidez que não valem a pena.

No primeiro texto que Rodriguinho publicou em O Globo, ele dizia que o movimento gay é de esquerda; odeia Ocidente — e, portanto, os brancos — e gosta da África; e que, por isso, não critica a lei homofóbica aprovada em Uganda, já que, para fazê-lo, o movimento gay precisaria dizer que os negros são homofóbicos. Vejam como sua simplificação é burra — e racista — ao ponto de não diferenciar “negros” de “africanos” e “brancos” de “ocidentais”. Ele precisa colocar um grupo inteiro do lado dos bons e o outro — porque, em sua percepção como na das crianças, o mundo é binário e só tem dois grupos de pessoas — do lado dos maus.

E precisa imaginar que eu faço o mesmo, só que no sentido contrário ao dele: Uganda aprovou uma lei anti-gay porque os negros africanos esquerdistas são homofóbicos, mas nós, gays, não criticamos essa lei porque somos de esquerda e, portanto, gostamos dos negros e detestamos os brancos, que são ocidentais judeus e cristãos, e, por isso, inimigos da esquerda…

Harvey Milk era negro, Obama é branco e Karl Marx era oriental. Não é mesmo? (Aviso que isto é uma ironia, já que a claque de Rodriguinho tem as mesmas estruturas cognitivas que a dele e, por isso, pode não captar a ironia de um texto.)

Além de informar o colunista sobre tudo o que os movimentos gays do mundo inteiro têm feito para denunciar a lei homofóbica de Uganda e outras semelhantes, eu tentei explicar para ele algumas questões básicas que ele parece desconhecer sobre a história da África. Tentei que ele compreendesse que as primeiras leis homofóbicas desse continente (as chamadas leis “antissodomia”) foram levadas pelo Império Britânico quando dominava vastos territórios por ali; e que a onda de preconceitos anti-homossexuais que infelizmente tem se espalhado por lá nos últimos anos não tem raízes nas culturas africanas, como o colunista imagina, mas na religião dos conquistadores e, mais recentemente, na ação política de igrejas evangélicas fundamentalistas dos EUA que investem milhões de dólares na “evangelização” desses povos, usando o preconceito contra os homossexuais como estratégia de marketing e financiando campanhas de políticos homofóbicos.

São dados da realidade, comprováveis com uma mínima pesquisa histórica. Há livros, documentários e teses que se debruçam sobre esse fenômeno e estão disponíveis para quem quiser ler. E, afinal de contas, não deveria ser difícil de compreender, porque no nosso próprio país, a força do discurso homofóbico vem, também, do fundamentalismo evangélico (que não é a mesma coisa que o evangelismo ou o cristianismo, mas uma versão fanática, extremista e preconceituosa dele, da mesma maneira que o islamismo dos aiatolás do Irã ou dos terroristas de Al-Qaeda não é a mesma coisa que a religião de Maomé, mas uma versão fanática, extremista e preconceituosa dela).

Contudo, sua estrutura cognitiva infantil –que divide a vida entre bons e maus– precisava adaptar minha resposta à sua visão do mundo. Então, o que ele entendeu é que eu estava dizendo que a culpa da homofobia na África é “do Ocidente”, da Grã-Bretanha e dos EUA, e não, como ele acha, “dos negros”.

Ele diz: para Jean Wyllys, a culpa é “do homem branco ocidental”. Não, menino, você não está entendendo nada! Há fatos históricos, como a implantação das leis antissodomia britânicas nas colônias africanas, e há fatos mais atuais, como a ação das igrejas fundamentalistas dos EUA que desmentem a sua burra e racista teoria de que a homofobia é um “traço cultural dos negros africanos”; porém, nem uma coisa nem a outra dizem respeito ao Ocidente como um todo uniforme e atemporal: nem as leis dos britânicos daquela época dizem respeito à sociedade atual desse país, que tem até casamento igualitário — de fato, os gays britânicos, que também são ocidentais, foram vítimas dessas leis, como testemunha a história do cientista Alan Turing —, nem a ação das igrejas neo-pentecostais americanas dizem respeito ao povo americano como um todo.

E nada disso tem a ver com a esquerda e a direita — afinal, da mesma maneira que o Império Britânico levou leis homofóbicas à Índia e às colônias africanas, o estalinismo soviético levou homofobia e outras calamidades aos países socialistas. A história da humanidade vai além, muito além, do esquema mental e da indigência intelectual que a divide em Legião do Mal e Liga da Justiça.

É fato que a homofobia — o nome que hoje adotamos para se referir à interdição e aversão à relação sexual entre pessoas do mesmo sexo — é um fundamento das religiões abraâmicas — as chamadas “religiões do livro”: o judaísmo, o islamismo e o cristianismo; e está ligada à exortação “crescei e multiplicai-vos” feita pelo Deus de um povo (as tribos patriarcais semitas) que precisava sobreviver à fuga do cativeiro até a “Terra Prometida”.

Essa exortação fez, do sexo para procriação, o único legítimo, e se converteu num valor reproduzido e transmitido ao longo dos séculos, pela língua e demais regimes de representação, nas culturas engendradas e influenciadas por essas religiões. E as sociedades ocidentais ainda carregam o legado dessa história, embora muitos teólogos e líderes religiosos já não façam a mesma leitura desses fatos (um exemplo é o arcebispo anglicano Desmond Tutu, da África do Sul, ativo militante contra o racismo e a homofobia, mas também tem outros exemplos nas igrejas protestantes dos “ocidentais” EUA e Grã-Bretanha). Também é fato que as sociedades ocidentais, capitalistas e com democracias liberais (nem todas as sociedades capitalistas são ocidentais, nem todas são democráticas), no último século, avançaram mais (e mais rápido) no reconhecimento dos direitos humanos da população LGBT e outras minorias, do que outros regimes.

E é fato, também, que os países africanos mais subdesenvolvidos e com regimes pós-coloniais que ainda nem chegaram ao capitalismo liberal têm condições de miséria (tanto no acesso aos bens de consumo quanto aos bens culturais e à educação formal) e carência de regras democráticas que fazem com que eles sejam mais permeáveis à ação dos fundamentalismos religiosos. A própria Igreja católica tem começado a olhar mais para a África e a América Latina, ao tempo que perde influência na Europa, que já foi seu berço e seu império. Para entender tudo isso tem que estudar e pensar um pouco mais!

Eu poderia continuar enumerando outros fatos, mas o fundamental é compreender que o mundo é bem mais complexo do que os desenhos animados e não há blocos estáticos, uniformes, atemporais, essenciais. A luta contra a homofobia, o racismo, o machismo, a intolerância religiosa e outras ameaças contra a liberdade e a dignidade humana é um desafio no capitalismo e no socialismo, em Cuba e nos EUA, no Oriente e no Ocidente, em Roma e em Teerã, no judaísmo, no islamismo, no cristianismo e até entre os ateus. E tem dado passos e recuos em cada canto do mundo. Os preconceitos se entrecruzam das maneiras mais diversas — há gays racistas, negros homofóbicos, mulheres antissemitas, judeus xenófobos, etc. — e atravessam nossa cultura das mais diversas formas, em diferentes regimes políticos e econômicos.

Quem quiser derrotá-los e construir uma sociedade mais justa e mais livre, precisará se livrar dos dogmatismos e deixar de ver o mundo como uma guerra entre o Bem e o Mal, como o vêem as crianças e os indigentes intelectuais (tenho pena dos conservadores que adotaram o enfant terrible como seu mentor intelectual). Precisará fazer política, no melhor dos sentidos, que é o que eu tento fazer cada dia da minha vida.

*Jean Wyllys é professor universitário e deputado federal pelo PSOL. Artigo originalmente publicado no sítio de CartaCapital

O post Jean Wyllys responde Rodrigo Constantino apareceu primeiro em Pragmatismo Político.

A VELHICE SOFREU UMA CIRURGIA PLÁSTICA NA LINGUAGEM

Me chamem de velha

Eliane Brum

Na semana passada, sugeri a uma pessoa próxima que trocasse a palavra “idosas” por “velhas” em um texto. E fui informada de que era impossível, porque as pessoas sobre as quais ela escrevia se recusavam a ser chamadas de “velhas”: só aceitavam ser “idosas”. Pensei: “roubaram a velhice”. As palavras escolhidas – e mais ainda as que escapam – dizem muito, como Freud já nos alertou há mais de um século. Se testemunhamos uma epidemia de cirurgias plásticas na tentativa da juventude para sempre (até a morte), é óbvio esperar que a língua seja atingida pela mesma ânsia. Acho que “idoso” é uma palavra “fotoshopada” – ou talvez um lifting completo na palavra “velho”. E saio aqui em defesa do “velho” – a palavra e o ser/estar de um tempo que, se tivermos sorte, chegará para todos.

Desde que a juventude virou não mais uma fase da vida, mas uma vida inteira, temos convivido com essas tentativas de tungar a velhice também no idioma. Vale tudo. Asilo virou casa de repouso, como se isso mudasse o significado do que é estar apartado do mundo. Velhice virou terceira idade e, a pior de todas, “melhor idade”. Tenho anunciado a amigos e familiares que, se alguém me disser, em um futuro não tão distante, que estou na “melhor idade”, vou romper meu pacto pessoal de não violência. O mesmo vale para o primeiro que ousar falar comigo no diminutivo, como se eu tivesse voltado a ser criança. Insuportável.

A velhice é o que é. É o que é para cada um, mas é o que é para todos, também. Ser velho é estar perto da morte. E essa é uma experiência dura, duríssima até, mas também profunda. Negá-la é não só inútil como uma escolha que nos rouba alguma coisa de vital. Semanas atrás, em um programa de TV, o entrevistador me perguntou sobre a morte. E eu disse que queria viver a minha morte. Ele talvez não tenha entendido, porque afirmou: “Você não quer morrer”. E eu insisti na resposta: “Eu quero viver a minha morte”.

Na adolescência, eu acalentava a sincera esperança de que algum vampiro achasse o meu pescoçointeressante o suficiente para me garantir a imortalidade. Mas acabei aceitando que vampiros não existem, embora circulem muitos chupadores de sangue por aí. Isso só para dizer que é claro que, se pudesse escolher, eu não morreria. Mas essa é uma obviedade que não nos leva a lugar algum. Que ninguém quer morrer, todo mundo sabe. Mas negar o inevitável serve apenas para engordar o nosso medo sem que aprendamos nada que valha a pena.

A morte tem sido roubada de nós. E tenho tomado providências para que a minha não seja apartada de mim. A vida é incontrolável e posso morrer de repente. Mas há uma chance razoável de que eu morra numa cama e, nesse caso, tudo o que eu espero da medicina é que amenize a minha dor. Cada um sabe do tamanho de sua tragédia, então esse é apenas o meu querer, sem a pretensão de que a minha escolha seja melhor que a dos outros. Mas eu gostaria de estar consciente, sem dor e sem tubos, porque o morrer será minha última experiência vivida. Acharia frustrante perder esse derradeiro conhecimento sobre a existência humana. Minha última chance de ser curiosa.

Há uma bela expressão que precisamos resgatar, cujo autor não consegui localizar: “A morte não é o contrário da vida. A morte é o contrário do nascimento. A vida não tem contrários”. A vida, portanto, inclui a morte. Por que falo da morte aqui nesse texto? Porque a mesma lógica que nos roubou a morte sequestrou a velhice. A velhice nos lembra da proximidade do fim, portanto acharam por bem eliminá-la. Numa sociedade em que a juventude é não uma fase da vida, mas um valor, envelhecer é perder valor. Os eufemismos são a expressão dessa desvalorização na linguagem.

Não, eu não sou velho. Sou idoso. Não, eu não moro num asilo. Mas numa casa de repouso. Não, eu não estou na velhice. Faço parte da melhor idade. Tenho muito medo dos eufemismos, porque eles soam bem intencionados. São os bonitinhos mas ordinários da língua. O que fazem é arrancar o conteúdo das letras que expressam a nossa vida. Justo quando as pessoas têm mais experiências e mais o que dizer, a sociedade tenta confiná-las e esvaziá-las também no idioma.

Chamar de idoso aquele que viveu mais é arrancar seus dentes na linguagem. Velho é uma palavra com caninos afiados – idoso é uma palavra banguela. Velho é letra forte. Idoso é fisicamente débil, palavra que diz de um corpo, não de um espírito. Idoso fala de uma condição efêmera, velho reivindica memória acumulada. Idoso pode ser apenas “ido”, aquele que já foi. Velho é – e está. Alguém vê um Boris Schnaiderman, uma Fernanda Montenegro e até um Fernando Henrique Cardoso como idosos? Ou um Clint Eastwood? Não. Eles são velhos.

Idoso e palavras afins representam a domesticação da velhice pela língua, a domesticação que já se dá no lugar destinado a eles numa sociedade em que, como disse alguém, “nasce-se adolescente e morre-se adolescente”, mesmo que com 90 anos. Idosos são incômodos porque usam fraldas ou precisam de ajuda para andar. Velhos incomodam com suas ideias, mesmo que usem fraldas e precisem de ajuda para andar. Acredita-se que idosos necessitam de recreacionistas. Acredito que velhos desejam as recreacionistas. Idosos morrem de desistência, velhos morrem porque não desistiram de viver.

Basta evocar a literatura para perceber a diferença. Alguém leria um livro chamado “O idoso e o mar”? Não. Como idoso o pescador não lutaria com aquele peixe. Imagine então essa obra-prima de Guimarães Rosa, do conto “Fita Verde no Cabelo”, submetida ao termo “idoso”: “Havia uma aldeia em algum lugar, nem maior nem menor, com velhos e velhas que velhavam…”.

Velho é uma conquista. Idoso é uma rendição.

Como em 2012 passei a estar mais perto dos 50 do que dos 40, já começo a ouvir sobre mim mesma um outro tipo de bobagem. O tal do “espírito jovem”. Envelhecer não é fácil. Longe disso. Ainda estou me acostumando a ser chamada de senhora sem olhar para os lados para descobrir com quem estão falando. Mas se existe algo bom em envelhecer, como já disse em uma coluna anterior, é o “espírito velho”. Esse é grande.

Vem com toda a trajetória e é cumulativo. Sei muito mais do que sabia antes, o que significa que sei muito menos do que achava que sabia aos 20 e aos 30. Sou consciente de que tudo – fama ou fracasso – é efêmero. Me apavoro bem menos. Não embarco em qualquer papinho mole. Me estatelei de cara no chão um número de vezes suficiente para saber que acabo me levantando. Tento conviver bem com as minhas marcas. Conheço cada vez mais os meus limites e tenho me batido para aceitá-los. Continua doendo bastante, mas consigo lidar melhor com as minhas perdas. Troco com mais frequência o drama pelo humor nos comezinhos do cotidiano. Mantenho as memórias que me importam e jogo os entulhos fora. Torço para que as pessoas que amo envelheçam porque elas ficam menos vaidosas e mais divertidas. E espero que tenha tempo para envelhecer muito mais o meu espírito, porque ainda sofro à toa e tenho umas cracas grudadas à minha alma das quais preciso me livrar porque não me pertencem. Espero chegar aos 80 mais interessante, intensa e engraçada do que sou hoje.

Envelhecer o espírito é engrandecê-lo. Alargá-lo com experiências. Apalpar o tamanho cada vez maior do que não sabemos. Só somos sábios na juventude. Como disse Oscar Wilde, “não sou jovem o suficiente para saber tudo”. Na velhice havemos de ser ignorantes, fascinados pelas dimensões cada vez mais superlativas do que desconhecemos e queremos buscar. É essa a conquista. Espírito jovem? Nem tentem.

Acho que devíamos nos rebelar. E não permitir que nos roubem nem a velhice nem a morte, não deixar que nos reduzam a palavras bobas, à cosmética da linguagem. Nem consentir que calem o que temos a dizer e a viver nessa fase da vida que, se não chegou, ainda chegará. Pode parecer uma besteira, mas eu cometo minha pequena subversão jamais escrevendo a palavra “idoso”, “terceira idade” e afins. Exceto, claro, se for para arrancar seus laços de fita e revelar sua indigência.

Quando chegar a minha hora, por favor, me chamem de velha. Me sentirei honrada com o reconhecimento da minha força. Sei que estou envelhecendo, testemunho essa passagem no meu corpo e, para o futuro, espero contar com um espírito cada vez mais velho para ter a coragem de encerrar minha travessia com a graça de um espanto.agem.

 Fonte: Revista Época

NEGROS DENUNCIAM PRECONCEITO EM HARVARD; NO BRASIL RACISMO "VELADO" PERSISTE

Por Mônica Aguiar para o Portal Áfricas


Eleita a melhor instituição de ensino superior do mundo no top 100 da THE (Times Higher Education) a Universidade de Harvard está sendo alvo de críticas de seus alunos negros, que lançaram uma campanha chamada Eu Também Sou de Harvard esta semana.

A ação traz fotos que foram publicadas nas redes sociais, nas quais os estudantes seguram cartazes que mostram frases consideradas preconceituosas, que eles ouviram de colegas da universidade.


Estudantes negros de Harvard protestam contra preconceito


USP cai, mas é a única brasileira entre as melhores universidades do mundo


No Brasil, especialistas apontam que apesar dos avanços promovidos por ações afirmativas como a lei de cotas que determina que 20% das vagas das universidades federais devem ser ocupadas por negros, pardos, índios e alunos de escolas públicas, a desigualdade racial ainda persiste.


O último levantamento do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) divulgado em outubro do ano passado mostrou que o número total de estudantes universitários do Brasil passou de 6,739 milhões em 2011 para 7,037 milhões em 2012. Fazendo recorte dos negros de pardos, houve um avanço. O número de universitários passou de 807.199 (11,9% do total) para 933.685 (13,2%).


Para Maria José Menezes, colaboradora do Núcleo de Consciência Negra da USP (Universidade de São Paulo), aumento do ingresso promovido pela lei de cotas é louvável, mas a diferença do ingresso de negros e brancos nas universidades ainda existe.



“O racismo na universidade segue uma tendência presente na sociedade brasileira, ou seja, acontece de uma forma ‘velada’”, relata a especialista.



Usando a USP como exemplo, Maria José chama a atenção para a falta de políticas de inclusão racial nas universidades públicas do Estado de São Paulo.


— As três maiores instituições públicas do Estado de São Paulo [USP, Unesp e Unicamp] não seguiram esta tendência. Nenhuma delas tem cotas para negros. A USP, por exemplo, não tem nenhum projeto de inclusão racial nem discute ações reais de inclusão dos negros. Isso é muito grave.



O reitor da Universidade Zumbi dos Palmares, José Vicente, também defende o progresso conquistado com as cotas para negros nas universidades federais. No entanto, ele lembra que, historicamente, este debate está fora da produção acadêmica.


— A primeira reação que vemos é a resistência em tratar temas negros nas instituições de ensino. As grandes universidades não têm uma discussão real, que formula propostas para transformar a desigualdade racial da sociedade brasileira. Não existe produção de tecnologia [ações reais de intervenção] nas universidades do País



Ele concluiu argumentando que para diminuir a desigualdade racial é preciso aumentar a representatividade dos negros nos cargos públicos.


— Precisamos universalizar a perspectiva do negro na sociedade brasileira. Cotas nas universidades são importantes, mas não encerram o problema. É preciso aumentar o número de negros nos cargos de pesquisadores, professores, técnicos e dirigentes de universidades e instituições de ensino.


Fontes: R7 / CEERT
Texto:R7


Foto: R7

ONU QUER IGUALDADE DE GÊNERO ENTRE PRIORIDADES GLOBAIS

Por Mônica Aguiar para o Portal Áfricas

Menina indiana segura um cartaz onde se lê "A liberdade não é apenas para meninos, mas também para meninas"

Menina indiana segura um cartaz onde se lê “A liberdade não é apenas para meninos, mas também para meninas”





Apesar dos avanços recentes, as mulheres representam cerca de 70% da população em extrema pobreza, ocupam apenas 21% das vagas dos Parlamentos nacionais, têm menos acesso ao emprego formal do que os homens, respondem pela maior carga de trabalho doméstico e ainda convivem com a mutilação genital, o casamento forçado, o estupro e outras formas de violência.

“Muito progresso foi feito, mas ainda temos um longo caminho a percorrer”, diz a indiana Lakshmi Puri, vice-diretora-executiva da ONU Mulheres, para quem é preciso desmontar estruturas de poder arraigadas nas sociedades “”numa revolução semelhante à que levou ao fim do apartheid na África do Sul.
“Houve uma época em que o apartheid era considerado normal. Mas, uma vez que se tornou claro que ele era injusto, insustentável e violava os direitos humanos, o ultraje resultou numa revolução que pôs fim ao regime. É deste tipo de revolução social e de pensamento que a gente precisa”, diz Puri àFolha.

Para que isso ocorra, a entidade luta para que os governos coloquem a igualdade de gênero entre as prioridades globais pós-2015.Nesse ano, uma nova agenda substituirá os chamados Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, conjunto de metas nas áreas de pobreza, educação, saúde, sustentabilidade e cooperação internacional que tiveram resultados diversos para homens e mulheres.

O mapa para mudar essa realidade já foi traçado há quase 20 anos, quando foram estabelecidas medidas a serem adotadas em 12 áreas prioritárias para o avanço feminino.

São ações que vão desde a garantia de acesso igualitário a heranças e ao crédito até a maior presença de mulheres no poder, passando ainda pelo enfrentamento da violência e pela representação sem estigmas da mulher na mídia (veja um resumo ao lado).

Muitas dessas ações, porém, ainda não foram plenamente implementadas.
A saúde reprodutiva, por exemplo, permanece um problema. Mais de meio século após a invenção da pílula anticoncepcional, 222 milhões de mulheres em países em desenvolvimento não têm acesso ao planejamento familiar.

A mortalidade materna também é elevada. Segundo a ONU, quase 800 mulheres morrem por dia em complicações relacionadas à gravidez e ao parto “”muitas delas ainda adolescentes.

“O planejamento familiar deve ser reconhecido como um direito, e o Estado precisa garantir o acesso às informações, aos serviços e aos insumos para que ele possa ser exercido”, diz Fernanda Lopes, representante auxiliar do UNFPA (Fundo de População das Nações Unidas) no Brasil.

Quando isso não ocorre, o acesso das mulheres à educação formal e ao mercado de trabalho torna-se ainda mais difícil. “Isso ajuda a perpetuar o ciclo de pobreza” diz Monica Kerrigan, responsável pela área de planejamento familiar da Fundação Bill e Melinda Gates.

As restrições no mercado de trabalho são outro problema. Mesmo em países onde o acesso à educação já é mais igualitário, as mulheres continuam ocupando cargos menos qualificados ou recebem menos pelas mesmas funções.

No Brasil, estudo realizado pela Secretaria de Políticas para as Mulheres mostra que, em 2011, as mulheres empregadas recebiam em média R$ 9 por hora trabalhada, contra R$ 10,90 dos homens. A taxa de desemprego feminina também era maior.
No entanto, elas já representavam 61,1% dos concluintes do ensino superior.
“As mulheres têm mais dificuldades de ascensão na carreira”, diz a ministra Eleonora Menicucci, que cita como razões principais para isso o preconceito, o assédio no mercado de trabalho e o excesso de responsabilidades das mulheres com a família.
Em 2011, o tempo gasto com o trabalho principal e o trabalho doméstico totalizava 58,5 horas para as brasileiras e 52,7 para os brasileiros.

“A divisão do trabalho doméstico continua muito semelhante ao que era antes”, diz a ministra. “Nós vestimos calças compridas, mas os homens não vestiram saias.

Fonte e texto : Folha.UOL.com.br
Foto:Mahesh Kumar A./Associated Pres

POR UM BRASIL MENOS GLOBELEZA




Você já fez uma reflexão sobre a imagem da mulher na nossa sociedade, sobretudo a da mulher negra e a violência a qual todas estamos expostas?

Essa violência assume muitas formas: física, sexual, psicológica e econômica e, pensando um pouquinho, a gente consegue perceber que elas se interligam, certo?

A morte de mulheres em decorrência de conflitos de gênero, ou seja, apenas pelo fato de serem mulheres (feminicídio) é assustadora: mais de 5000 por ano, uma mulher a cada hora e meia morre por causas violentas, e nessa conta não estão o trânsito e nem filas em hospitais.

Se você é mulher, tem que se cuidar ao quadrado! É assim em tempos de paz e muito pior em tempos de guerra.

Agora se você é mulher e negra, a situação piora, pois 61% dessas mortes são de mulheres negras.

Desde que o mundo é mundo a mulher é vista como um ser passível de subserviência, sobretudo sexual. E, embora em muitos países a imagem da mulher, o respeito a sua sexualidade e papel na sociedade tenham evoluido positivamente, existe, até hoje, no Brasil, uma aceitação cultural da violência contra a mulher.

Que mulher nunca se sentiu como um frango de padaria sendo observado pelo cachorro faminto? Quem nunca ouviu um: “Olha lá a fulana, tá pedindo!”?

A roupa que ela usa ou deixa de usar serve de justificativa para muitas atrocidades, afinal, o desejo sexual é uma coisa animal e o homem é macho alfa! Isso estaria certo se os homens fossem iguais aos animais em tudo, ou seja, não tivessem cérebro e controle do polegar opositor.

O tráfico negreiro e as relações escravocratas pioraram muito a situação para as mulheres negras. Afinal, se mulher é subserviente, uma mulher sem alma não passa de um objeto.

Exagero? Não é não! Muitas expressões que você ouve e talvez até repita por aí são “resquícios” atualíssimos desse subconsciente coletivo racista e machista. Exemplos? A morena da cor do pecado, mulata exportação, a Globeleza, tudo isso reforçado e difundido pela mídia nacional tendo como ponto alto o carnaval.

Por que a imagem da mulher negra é sempre sexualizada?

Já faz tempo que as mulheres foram promovidas a seres humanos! Uma hora dessas tenho esperança de todas sermos vistas assim, pelos homens e pelas mulheres também (sim menina, analise suas atitudes e vai achar um machismozinho enraizado no seu âmago) e por isso, eu gostaria que cada vez menos mulheres (negras principalmente) tivessem que ser expostas como mercadoria, pois para mim isso só reforça a nossa imagem como objetos sexuais e contribui para o aumento dos crimes, da violência e do tráfico de mulheres e crianças.

Será mesmo que todas as mulheres negras do Brasil só podem “subir” na vida para o posto de Globeleza, de empregada gostosa na novela ou mulata no carnaval?

Por que uma mulher que é dona da sua sexualidade, do seu corpo é vilã? Vulgar? Tenho certeza que não está pedindo nada, a não ser respeito às suas escolhas.

A imagem da mulher e a violência à qual está exposta são assuntos densos e tem vários desdobramentos, mas acredito que tenha criado uma oportunidade de reflexão.

Queremos um Brasil menos Globeleza?

Inté +

Imagem: Kaiser Permanente History , CDN

Fonte dos dados: Ipea