quarta-feira, 14 de junho de 2017

O COLETIVO E A VERDADE TIRANIA DOS VITIMISTAS

O QUE ANULA TUDO QUE ESTÁ ESCRITO É O ÓDIO.  (MF)


A VERDADE TEM SUAS PREMISSAS NA DIALÉTICA - POR MANOEL BEZERRA ROCHA




O recente episódio ocorrido na Faculdade de Direito da Universidade Federal de Goiás reacende o debate acerca da intolerância manifestada por grupos que se autodenominam “minorias” e “vítimas” do preconceito e discriminação. Essa modalidade atual de tirania, que se vale do vitimismo como instrumento de vilipêndio e intolerância, impediu uma professora de proferir uma palestra porque suas ideias são contrárias aos dogmas sectários e fanaticamente patológico apregoados por grupos de pessoas que se dizem ‘feministas”. A professora viu o ambiente acadêmico ser invadido, de onde fora expulsa sob intensa violência moral e iminente ameaça de agressão física, o que só não ocorreu porque contou com a proteção dos seguranças da universidade.

São agressores, fanáticos, intolerantes, que difundem discursos de ódio que se dizem vítimas de preconceito mas que não suportam qualquer argumento que possa contrariar aquilo que repetem como um mantra, quase sempre sem sequer refletir sobre o que falam. Tornam-se não apenas cerceadores de qualquer manifestação contrária às suas, mas em convertem-se em patrulheiras das ações, expressões, pensamentos, sempre prontas ao massacre moral, social, pessoal de quem ousar não reverberar suas demências. Nesse terreno pantanoso, como que programados e temerosos do confronto, surgem os séquitos ou, para usar uma expressão mais em voga, os “politicamente corretos”, exemplares modernos da valha idiotice coletiva, que, sem capacidade de pensar nem argumentar, muito menos de questionar aquilo que lhes impõem verticalmente, tornam-se em coprófagos dessas “verdades” encapsuladas, estabelecidas por essa nova modalidade de tirania, hipócrita tirania, identificada pelo neologismo mefistofélico denominado “coletivo”.

O problema da verdade já foi mais construtivo para privilegiadas civilizações no passado que puderam dedicar-se à dialética a partir dos elementos de uma verdade lógica, intuitiva ou dedutiva – tudo isso com imensuráveis contribuições para o aprimoramento e evolução do pensamento humano. Para o positivista Augusto Comte (1718 – 1857) somente são considerados verdadeiros os conhecimentos baseados em fatos que podem ser observados.

A possibilidade da verificabilidade das provas é uma exigência básica do conhecimento científico. O único critério para saber se um conhecimento é verdadeiro ou falso é a possibilidade de sua verificabilidade. Para Heráclito (± 540 a.C. – 475 a.C.), a verdade era o Devir. A dialética está sempre em movimento e as forças contrárias como o Bem e o Mal, positividade e negatividade, promovem o surgimento da verdade no mundo. Empédocles (490 a.C. – 430 a. C.), afirmava que dois elementos como princípios universais e opostos estariam submetidos à verdade, Amor e Ódio, um pela atração e união, o outro pela repulsão e separação, as mesmas forças contrárias.

Nos dias atuais, parece estarmos diante de um novo conceito de “verdade”, aquela que não admite interpretação divergente, a que abomina a dialética, a que rejeita qualquer possibilidade de confrontação de ideias: a verdade impositiva. Essa “verdade”, é uma característica peculiar da atual geração de zumbis do pensamento, uma espécie de contrafilosofia da geração de adoradores do superficialismo. A cultura do “politicamente correto” que engessa a capacidade de raciocínio, de tirocínio, e estimula o medo da sinceridade diante de uma legião de pessoas programadas. Constrói-se uma sociedade formada por pessoas fadadas à repetição de frases feitas e avessas ao raciocínio, ao uso, ainda que mediano, da capacidade intelectual.

Talvez não seja por acaso que pesquisas do Instituto Salk, de San Diego (EUA), afirmam que, comparação da atividade genética de humanos com a de chimpanzés sugere que o “Homo sapiens” está evoluindo de forma mais lenta que os macacos. Creio que em nenhuma outra época a questão da verdade tenha sido tão radicalmente contrária à opinião divergente. No passado, a ausência dessas amarras nos legou grandes filósofos, importantes pensadores. As “ideias originais” possibilitaram nossa evolução intelectual. Modernamente, infelizmente, o medo da verdade nos impele a condutas hipócritas.

Neste mesmo espaço democrático do DM, já escrevi um artigo expressando a minha opinião, baseada em sedimentações empíricas, em dados de pesquisas bibliográficas, mas, principalmente, de minhas experiências profissionais. Argumentei que o machismo no Brasil é uma invenção das feministas e que os dados estatísticos sobre a violência contra as mulheres e os homossexuais são questionáveis e comprovadamente insustentáveis. Em relação às feministas e aos homossexuais, os seus discursos dizem uma coisa, a realidade os desmente, mostrando-me outra absolutamente oposta, principalmente no que se refere à violência que eles insistem em dizer que sofrem e que a causa é o “machismo”. O artigo repercutiu nacionalmente e os xingamentos e ofensas dardejadas à pessoa e à honra deste missivista apenas confirmam e reforçam aquilo do qual estou sobejamente convicto: os discursos de gênero e de outros vitimistas coletivistas, uma casta de mimadinhas dos políticos demagogos no Brasil, são falsos e mal-intencionados. Nenhuma reivindicação verdadeiramente justa e legítima se posiciona tão radicalmente violenta e intransigente com quaisquer opiniões diferentes. Liberdade de expressão, de manifestação de ideias e pensamentos não são aceitos por elas. A truculência e a imposição são as armas daqueles que não têm argumentos. A mentira e a manipulação de informações, no intuito de adequar-se ao senso-comum ou ao discurso do politicamente correto, podem acarretar prejuízos à toda uma coletividade.

Recentemente, representantes do Ministério da Saúde, ao abordarem os novos números sobre a Aids no Brasil, utilizaram-se de subterfúgios para esquivarem-se, por receio e hipocrisia, da necessária verdade. Os números indicam que o segmento social onde o vírus HIV mais tem aumentado é entre os homossexuais. Porém, nas reportagens sobre a pesquisa, com receio de melindrarem os gays, para não serem epitetados de “homofóbicos”, optaram por advertir que o risco de contágio é maior entre “homens que fazem sexo com outros homens”. Ora, essa! Desde quando homem que é homem faz sexo com outro homem? Homem transa com mulher. Pessoas do sexo masculino que transam entre si são gays, homossexuais. Qual o problema em ser honesto e dizer que o risco é maior entre os homossexuais? Outro fato, também de ampla divulgação na imprensa, é o caso da piscina com um símbolo da suástica nazista que fora avistada, pela polícia, do alto de um helicóptero, por acaso. A vida do proprietário da piscina se transformou num pesadelo. Afinal, que mal acarreta à coletividade uma pessoa ter um símbolo, no interior de sua propriedade, que memoriza um fato ou uma época histórica? Isso restauraria o nazismo e o extermínio de judeus? Se o Holocausto é uma verdade histórica incontestável, por que tanto incômodo com a dúvida de alguns anônimos que relutam em acreditar na “história oficial”? Se o Holocausto é uma verdade baseada em fatos que podem ser observados, demonstrados, qual a razão de temer-se tanto o simples fato de alguém colecionar, como simbolismo histórico, um ou outro objeto ou insígnia de um sujeito ou de uma realidade política com incontestável relevância para os registros históricos, ainda que negativos, da humanidade?

O historiador israelense Shlomo Sand, em seu livro “A invenção do povo judeu”, afirma que os judeus contemporâneos descendem em sua maioria de povos convertidos, originários de diversos pontos do meio oeste e da Europa Oriental. Portanto, se a formação do atual estado judaico é um mito, uma fantasia, por que não se pode sequer duvidar do Holocausto? Por que não debater essa tão difundida infâmia contra a Humanidade dentro do plano das ideias, da dialética, ao invés da truculência, da perseguição, da intimidação, da força?

Na França a pressão dos judeus forçou o governo a criar uma lei absurda, vergonhosa, punindo com prisão quem ao menos duvidar que o Holocausto tenho ocorrido. Eu, sinceramente, tudo o que sei sobre o Holocausto é o que é propagandeado através do cinema e empresas cinematográficas pertencentes a judeus e de livros escritos ou financiados por entidades judaicas. É dizer: tudo o que sei sobre o extermínio de judeus é através da perspectiva dos judeus. No Brasil, o Supremo Tribunal Federal, capitaneado pelo ex-ministro Nelson Jobim, e sob intensa pressão da comunidade israelita, tendo à frente o rabino Henry Sobel – aquele preso em flagrante numa loja de luxo em Miami furtando gravatas – conseguiu a condenação de um historiador gaúcho, descendente de alemães, a uma pena de prisão e ter que incinerar todos os seus livros que, com fartos documentos, negava a existência do Holocausto. Atitudes como essas não diferem daqueles sanguinários e radicais islâmicos, que rotulam de “infiéis”, condenam à morte e cometem atentado contra qualquer um que não comungue de suas ideias fanáticas ou que não adore e creia no mesmo Deus (Alá) que eles.

A intolerância a quem pensa diferente é a base para o surgimento da tirania, da opressão, do autoritarismo. Portanto, creio que é justamente a falta de consistência que compele a uma reação agressiva, autoritária, avessa ao diálogo, à tolerância. Na sociedade moderna a dialética é sepultada. Subgrupos criam seus arquétipos e, a partir disso, as ideias do inconsciente coletivo surgem prontas, imutáveis, invariáveis. Parece que a base, a origem do pensamento social advém de um tronco único, um totem.

A concepção da verdade de Comte parece ter sido suplantada. O conceito de Heráclito não encontra lugar nesta sociedade contrária à dialética, que abomina qualquer possibilidade de existência de ideias divergentes. Para determinados temas como a questão dos judeus, do feminismo, do homossexualismo, dos negros, tudo é estabelecido pronto e acabado, é uma tese que não admite antítese. Daí deriva a fragilidade sobre essas “verdades”. Elas não resistem às opiniões divergentes. Quem ousar argumentar, partindo de ideias opostas ou que escape do senso-comum, é logo estigmatizado de preconceituoso, discriminador, disseminador de ódio, antissemitista, machista, homofóbico, racista. Entretanto, não percebem que se uma tese não admite uma antítese, não há síntese, aquilo que para Kant consiste na união do que é dado empiricamente com a experiência objetiva e, para Hegel, a aceitação de identidades opostas numa unidade superior. Concepções maniqueístas são opostas à verdade. Ideias que não admitem oposições não se confirmam; são frágeis, inconsistentes, incompletas. São forças estáticas que não se sustentam como verdades, pois, saturam-se e, como uma partícula atômica, colapsa-se em si mesma.

A verdade tem suas premissas na dialética. No dizer de Heráclito, repetindo: “a dialética está sempre em movimento e as forças contrárias promovem o surgimento da verdade no mundo. A dialética, a contraposição de ideias, não elimina um direito, não encobre uma verdade, uma realidade; ao contrário, reforça-a, reafirma-a, fortalece-a. De outra maneira, quem se opõe, fervorosamente, a qualquer argumento, não está convicto de suas posições e, na pior das hipóteses, trata-se de um tirano, comprometido apenas com a sustentação, a qualquer custo, de suas mentiras.



(Manoel L. Bezerra Rocha, advogado criminalista. mlbezerrarocha@gmail.com)

terça-feira, 13 de junho de 2017

AS LÁGRMAS DE UM MÉDICO HUMANO


CARTAS E REFLEXÕES PROFÉTICAS - DOM ORVANDIL

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Recebi de minha amiga Renata Beiro este relato do médico Daniel Sabino, de Brasília.


Trata-se de um diagnóstico político e moral sobre a situação do aposentado Clementino, que mora aqui Goianésia, Goiás. Clementino levou um tiro da polícia no dia 24 de abril na manifestação “Fora, Temer”. Leia abaixo o comovente relato do médico Daniel Sabino, que não se esqueceu do principal documento de um herói brasileiro, sua dignidade afrontada e humilhada a bala pelo Estado assaltado pelos golpistas, mas também da tragédia humana que vivemos hoje no Brasil.


Clementino finalmente foi dado de alta hoje, sábado. Depois de 10 dias internado, ontem a noite foi submetido a um procedimento cirúrgico. Partiu, com um olho a menos, acompanhado de sua humilde esposa, sacola de plástico na mão, chinelo de dedo, a pé, em direção ao metrô.


Fará uma escala na Ceilândia, na casa de um familiar, até conseguir pegar o ônibus para Goianésia, a mais de 200 km de Brasília. Ontem levei-lhe duas camisas, porque já não tinha roupas limpas. O Estado? A Defensoria Pública? A OAB? A Secretaria de Direitos Humanos? Os moralistas? Nunca apareceram! Alguém da polícia para ao menos pedir-lhe desculpas? Quem vai devolver-lhe esse olho? Quem vai arcar com os prejuízos materiais, físicos, psicológicos e morais desse cidadão, cujo único crime foi vir a Brasília manifestar-se por seus direitos?


Chorei ao sair do hospital: pela hipocrisia, a ignorância e a desumanidade do cidadão médio brasileiro. Não se trata de ideologias, de partidos políticos, mas de respeitar a condição humana, a dignidade. Sinto aquela impotência que rasga a carne. A esperança se esvai. Só me resta uma certeza: são esses heróis anônimos que fazem a História, enquanto vocês ficam sentados no sofá assistindo televisão chamando-os de baderneiros.

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domingo, 11 de junho de 2017

CINCO DIFERENÇAS ENTRE O DIRETAS JÁ DE 1984 E O DE 2017

Publicado em Carta Capital

34 anos depois da primeira campanha por Diretas, o Brasil revive a pauta do fim do regime militar (1964-1985), mas em outro cenário político e histórico.



Vinícius Mendes, BBC

Tânia Rego/Agência Brasil


Em 10 de abril de 1984, mais de um milhão de pessoas realizaram, no centro do Rio de Janeiro, o maior comício da campanha pelas eleições diretas organizada no final do regime militar. Em um dos momentos marcantes, o cantor e compositor Milton Nascimento puxou a multidão no ritmo da música "Nos bailes da vida".
No último dia 28, Milton, de 74 anos, voltou a entoar os versos da canção ("Todo artista tem de ir/onde o povo está"), desta vez na praia de Copacabana e para um público bem menor - os organizadores disseram ter reunido 50 mil pessoas, e as autoridades não divulgaram uma estimativa. O objetivo, porém, era o mesmo: a mobilização por eleições diretas no país.
Um ato semelhante ocorreu neste domingo em São Paulo, poucos dias após a Comissão de Constituição e Justiça do Senado aprovar proposta que prevê voto popular em caso de vacância da Presidência nos três primeiros anos de mandato. O texto ainda precisa ser aprovado no plenário da Casa e da Câmara dos Deputados para entrar em vigor.
Ou seja: 34 anos depois da primeira campanha, o Brasil revive a pauta do fim do regime militar (1964-1985), mas em outro cenário político e histórico. E quais são essas diferenças de contexto?


A BBC Brasil consultou pesquisadores em história e política nacional que vivenciaram ou estudaram os dois momentos e identificam ao menos cinco diferenças importantes entre a reivindicação de hoje e aquela dos últimos anos de ditadura.

1) Cenário político



A primeira diferença é, naturalmente, a situação política do Brasil, que em 1984 estava em transição de um regime autoritário para um projeto democrático.
A mobilização atual, afirmam professores ouvidos pela reportagem, é um instrumento de grupos da sociedade que veem uma chance de apaziguar a crise política que o Brasil enfrenta há mais de dois anos, mas dentro de um regime democrático.

Carta Maior 



"A campanha dos anos 1980 era contra uma ditadura militar de quase duas décadas. Não vejo semelhanças com o movimento de agora", crava o cientista político e historiador José Murilo de Carvalho.
O professor de Filosofia do Direito da USP José Reinaldo Lopes tem a mesma visão. Para ele, o primeiro Diretas-Já estava inserido em um cenário de "inimigo em comum", enquanto hoje há uma resposta de momento à situação institucional.
"O movimento atual é casuístico e conjuntural, porque chega para resolver uma crise", opina.
O filósofo Renato Janine Ribeiro, professor de Ética e Política da USP e ex-ministro da Educação no governo Dilma Rousseff, manifesta percepção um pouco distinta. Para ele, o atual momento é mais semelhante ao fim do regime militar do que aparenta ser.
"Não temos tanta liberdade de expressão e o movimento do voto foi questionado (no impeachment de Dilma). Se você falar que estamos numa democracia não assino embaixo, porque esse governo não tem legitimidade popular", afirma.

2) Mobilização da sociedade



Para o historiador José Murilo de Carvalho, enquanto em 1980 havia união da sociedade em torno da proposta de votação popular para presidente e da ideia mais ampla de eleições diretas como projeto político, a campanha atual é uma demanda de um dos setores envolvidos no embate político.
"A campanha dos anos 1980 unia todos os que eram contra uma ditadura que não admitia eleição direta, isto é, unia a grande maioria do povo brasileiro. A de hoje é, em boa parte, extensão do conflito gerado pelo impeachment de Dilma Rousseff", avalia.

 
Direito de imagem Agência Brasil 
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 Ato em maio em Brasília por eleições diretas e pela saída do presidente Michel Temer; mobilização é extensão do conflito que levou á queda de Dilma, avalia José Murilo de Carvalho

Sou a favor das diretas os que combateram o processo de impeachment, com a adesão de parte dos que se desapontaram com o governo Michel Temer. Dificilmente o movimento de hoje conseguirá a mesma mobilização", sugere.
Professor de Ciência Política da Escola de Sociologia e Política de São Paulo, Aldo Fornazieri vai na mesma linha.
"A atual reivindicação não está inserida num contexto de contestação de todo o regime político. Aquela pauta dos anos 1980 foi mobilizadora porque era uma perspectiva de país. Agora é a representação de parte da sociedade, a esquerda, que foi derrotada no impeachment", diz.
Fornazieri afirma que os atuais movimentos por eleições diretas têm caráter mais prático e menos estratégico. "Eles querem aglutinar forças e demarcar um campo de não conciliação com quem tirou a Dilma do poder. É mais tático."
Conrado Hübner Mendes, professor de Direito Constitucional da USP, vê como "totalmente compreensível" a articulação atual por eleições diretas, mesmo que envolva uma dimensão menor da sociedade.
"Parece inadmissível que, num momento de tamanha degeneração das instituições representativas, em que não há uma autoridade política relevante sem envolvimento em práticas corruptas, sigamos a solução constitucional de eleições indiretas", afirma.

3) Visão de futuro



Se o movimento original das Diretas-Já representava algo a que se agarrar diante da crise econômica e de um regime em declínio, os protestos de hoje são reações sem perspectiva clara de futuro, dizem analistas.
Para Janine Ribeiro, os atos do passado iam além de uma pauta política: eram também esperança em um projeto de país.
"O final da ditadura tinha uma perspectiva extraordinária: acreditava-se que a democracia resolveria todos os problemas do país - a miséria ia diminuir, a economia ia crescer, a Justiça seria mais equilibrada, a política se estabilizaria. Hoje não há nenhuma esperança sobre o futuro", avalia.
"Hoje a pauta procura atenuar a crise impedindo que outras pessoas sejam eleitas (pelo voto indireto)", completa.

4) Atuação de líderes políticos



A campanha do fim do regime militar uniu a sociedade e conseguiu colocar diversos líderes políticos no mesmo palanque, mas algo daquela dimensão não se repetiu mais.
No famoso ato da Praça da Sé em São Paulo, em janeiro de 1984, por exemplo, Lula, já representando o PT, estava abraçado ao então senador pelo PMDB Fernando Henrique Cardoso.
Ao lado deles, o governador do Rio de Janeiro, Leonel Brizola, do PDT. A única força política contrária ao pedido - e que seria determinante para a sua derrota - era o PDS, partido herdeiro da Arena, a sigla de sustentação à ditadura.

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 Comício por diretas em São Paulo em 1984; imagem mostra narrador Osmar Santos (com microfone na foto) ao lado de políticos como Fernando Henrique Cardoso e Leonel Brizola


 O professor José Reinaldo Lopes endossa a percepção de divisão entre os políticos profissionais, argumentando que as diferenças de opiniões ajudam a refletir sobre o papel que possuem diante da crise.
"Não se vai conseguir colocar todos os políticos no mesmo palanque novamente, o que é um sinal interessante: significa que conseguiremos ver os diferentes interesses em jogo."

5) Organização das mobilizações



Atores políticos dedicados a mobilizar eleitores em torno das causas também mudaram de lugar. Se antes os protagonistas eram os partidos políticos em formação desde o início da década de 1980, como PMDB, PT e PDT, o ato de domingo em Copacabana, por exemplo, foi organizado por duas frentes de esquerda, Brasil Popular e Povo Sem Medo.
A frente Brasil Popular inclui entidades como CUT (Central Única dos Trabalhadores), MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), CPT (Comissão Pastoral da Terra) e Fora do Eixo. A frente Povo sem Medo é encabeçada pelo MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto).
A participação partidária no ato do Rio se restringiu a congressistas do PSOL e da Rede, os mesmos que estão à frente da defesa da proposta de emenda que pede eleições diretas.




José Reinaldo Lopes analisa a mudança sob um prisma mais negativo. "São movimentos desenraizados. A campanha dos anos 1980 reuniu grupos da sociedade civil que eram atuantes em outras esferas, como saúde, educação, trabalho, regularização fundiária. O que chamamos de movimentos sociais hoje não têm base popular e não são ligados à ação real na sociedade civil", critica.
Fornazieri defende a legitimidade dos movimentos sociais à frente da atual demanda por eleições diretas.
"Não deixa de ser uma parte da sociedade civil", argumenta.

créditos da foto: Tânia Rego/Agência Brasil

sábado, 10 de junho de 2017

RACISMO À BRASILEIRA É, ALÉM DE CÍNICO, PERVERSO E CRUEL


WASHINGTON ARAÚJO

Jornalista, escritor, professor da UnB, tem 17 livros sobre mídia e direitos humanos. Autor do blog de jornalismo e cultura Cidadaodomundo.org



Causou frenesi o elogio enviesado do ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal, ao ex-presidente Joaquim Barbosa por ocasião da aposição de seu retrato na Galeria de Presidentes do STF.

Pelo que conheço do ministro, ele está muito longe de ser pintado como racista, como alguém que se considera superiormente racial a outrem. A seu favor, toda a sua história, as muitas causas que tem defendido, os livros que escreveu, suas muitas falas em conferências, debates e mesas redonda.

Ter se referido a Joaquim Barbosa como "negro de primeira linha" foi uma armadilha mental e, como armadilha, foi rapidamente por ele mesmo desativada, pois não precisaram que horas decorressem para que o ministro Barroso se retratasse de forma clara, didática, pública e insofismável.

O próprio reconhecimento de que seria vítima de racismo incubado, algo inconsciente e que continuava oculto em algum desvão da mente, é, por si só, um poderoso atestado de sua humanidade, e nessa condição, como todos nós, sujeito a falhas, falas impróprias, "pensamentos impensados".

E como ensina a sabedoria mística oriental "em um erro pode ter mil acertos", este do ministro trouxe consigo o acerto de nos fazer refletir sobre se somos ou não racistas, se dissimulamos bem nosso racismo ou se realmente estamos inteiramente vacinados contra os males que o vírus do racismo causa em nosso corpo ético, mental, espiritual.

O racismo à brasileira se desnuda muito claramente à maneira como se mostrou na fala do ministro: é um racismo enrustido, aparentemente adormecido e que do nada, qual tigre, pode saltar do coração e da mente para a boca. E a boca fala muito daquilo que sente o coração, daquilo que a mente pensa.

O racismo à brasileira é o pior de todos porque é enfermidade que nos acompanha desde a mais remota infância, a par com o sarampo e a catapora, a par mesmo com as dores da primeira dentição. Está tão arraigado em nossa sociedade que muitas vezes nem percebemos quando estamos sendo racistas. Mas, absolutamente, isto não nos isenta de culpa. E a punição é esta: sermos expostos em nossa hipocrisia tanto moral quanto social quando dizemos aos quatro ventos que não somos racistas.

O racismo à brasileira é vil e torpe. Vil porque quer sempre passar batido, faz de tudo para não ser notado e quando se apresenta, procura ser mascarado por intenções outras. Torpe porque é cruel com sua vítima, isto é, surge quando é menos aguardado, algo meio que inesperado. Imagine alguém, como o ministro Barroso, a título de homenagear uma pessoa, um amigo e seu antigo colega de Suprema Corte, desferir palavras a título de elogio e admiração por sua brilhante trajetória acadêmica, e em tal frase carregar consigo todo o mal-estar contido em longos e penosos séculos de sofrimentos que causamos a todos os afrodescendentes?

E foi isto o que aconteceu.

O racismo à brasileira é de um cinismo ultrajante uma vez que sobrevive nas sombras de nosso inconsciente, como aquela criatura – o Voldemort, que se encastelava no turbante do velho professor do mago teen Harry Potter e de lá passava incólume, escondido, oculto. Mas era de lá que Voldemort manipulava os pensamentos do professor, maquinava as maldades sem fim contra Potter.

Será que não temos um Voldemort de estimação em nossas cabeças? Não faz muitos anos tínhamos uma campanha contra a discriminação racial que se resumia em uma frase de feito: "Onde se esconde o seu racismo?" E sempre que lia esta frase em sites da internet, em cartazes do movimento de direitos humanos, logo me vinha à ponta da língua a resposta: "Se esconde em minha cabeça e está sempre a meio palmo de distância de minha boca!"

Em 1986, em importante documento da Casa Universal de Justiça, restou afirmado que "o racismo, um dos males mais funestos e mais persistentes, constitui obstáculo importante no caminho da paz" e que sua prática "consuma uma violação demasiado ultrajante da dignidade do ser humano para poder ser tolerada sob qualquer pretexto."

O senso de justiça de tão veemente declaração invalida por completo uma superioridade racial branca respaldada por testes de inteligência que por mais que venham a ser corrigidos de sua tendenciosidade, ainda assim não têm força para impedir a tendenciosidade dos cientistas que os interpretam. Um documento divulgado há mais de 30 anos e que, no entanto, parece ter sido publicado hoje, tal sua urgência e atualidade.

Não obstante detectar a deturpação de determinados métodos estatísticos, principalmente quando os resultados almejados buscam diminuir os direitos à condição humana de outros seres humanos,

Ressalto duas questões de uma pesquisa realizada pela antropóloga Lilia Schwarcz, autora de "O Espetáculo das Raças":

(1) Você é preconceituoso? 99% responderam "não" e

(2) Você conhece alguém preconceituoso? 98% responderam "sim".

Cansado de ouvir uma multidão a dizer que não é racista, penso nesse bonitos versos de Telles Junior: "Meu peito é matriz onde canta Zumbi Sem toque de sinos, com imagens de Vida!"

Em quantos peitos ouviremos a canção de Zumbi dos Palmares, aquele herói enlouquecido de esperança e mentor de uma nação praticante da unidade racial?

Aproveitemos o episódio disparado por Barroso para refletirmos - de forma realmente vigorosa e sincera - sobre como poderemos extirpar o racismo de nossos corações. Por que, sem dúvida alguma, a melhor arma contra o racismo é excluirmos de nossa mais profunda memória emocional esse falso complexo de falaciosa superioridade racial.

Antes de dizermos "não sou racista", que tal respondermos a este rápido check-list mental:

1. Quantos dos meus amigos são negros, afrodescendentes?
2. Quantos dos amigos de meus filhos e filhas são negros, afrodescendentes?
3. O que sei – e o que posso aprender - com o estudo da vida de humanistas brilhantes como o Mahatma Gandhi, Louis Gregory, Martin Luther King, Enoch Olinga e Nelson Mandela?
4. Qual a minha avaliação de filmes como "A cor purpura", "Histórias Cruzadas", "12 anos de escravidão", "Raízes", "Selma" e "Estrelas Ocultas"?
5. Em minha cabeça escritores como Machado de Assis e Lima Barreto são afrodescendentes?

Este já é um bom começo para, se nos sairmos bem nas respostas, podermos dizer com certo grau de convencimento que realmente não somos racistas.

No fundo mesmo, o que torna um ser humano superior a outro é quantidade de virtudes morais e espirituais que ele coloca em ação, os seus muitos gestos diários no correr da vida que mostram a força de um caráter nobre e luminoso.