domingo, 15 de fevereiro de 2015

AFOXÉS E BLOCOS AFRO: A REPRESENTATIVIDADE NEGRA NAS RUAS DE RECIFE/PE E SÃO LUIZ/MA


quarta-feira by juliana.silva


Alguns dos símbolos da resistência negra no carnaval, os blocos afro e afoxés dão o tom da festa por meio da reverência e valorização da ancestralidade africana nos festejos

A série de matérias especiais “Carnaval e Identidade Negra” abre espaço para falar de duas das manifestações importantes do carnaval brasileiro. Os Blocos Afro e Afoxés fazem do carnaval uma demonstração não só de festa e folia, mas de fé e afirmação da cultura afro dentro desse universo tão rico e próspero. Em comum, tem o objetivo de preservar a tradição negra e mostrar os contrastes desses movimentos.

Afoxé – Os Afoxés têm vínculo com as manifestações religiosas dos terreiros de candomblé. Nesse sentido, a expressão artística geralmente é conduzida por um Babalorixá ou Ialorixá levando em suas músicas mensagens de paz, harmonia e integração entre os povos. Entre os afoxés brasileiros destacam-se Filhos de Gandhy na Bahia, Ara Ode em Pernambuco, Afoxé Estrela D´Oyá no Rio de Janeiro e outros.

O Alafin dos afoxés brasileiros - Um dos mais tradicionais de Pernambuco e mais antigos afoxés do país, a Associação Recreativa Carnavalesca Afoxé Alafin Oyó foi fundada em 02 de março de 1986. De origem iorubá, a palavra Alafin significa um título de nobreza como Senhor do Palácio ou mesmo Rei. A agremiação tem por objetivo repassar e preservar a cultura tradicional pernambucana e em especial, a cultura negra. No desfile, os trajes são tipicamente à moda africana, o que o caracteriza como um cortejo afro.



Considerado o responsável por um dos maiores repertórios de afoxé do estado, o Alafin confecciona os trajes dos participantes, os instrumentos e ainda busca cuidar do lado social da comunidade a qual faz parte. Apesar de não ter sede própria, o grupo oferece ações como aulas de percussão, dança, canto, e para os estudantes pré-vestibular e preparatório para concursos públicos.” Nosso pré-vestibular funciona com a ajuda dos colaboradores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Eles dão todo suporte necessário para que nossos jovens possam chegar mais bem preparados ao vestibular”, conta.

De acordo com o presidente do Alafin, Fabiano Santos, a iniciativa é uma maneira de aproximar os jovens do grupo e manter a tradição do afoxé viva. “A entidade é só um link para a transformação social da comunidade negra que vemos passar por diversas dificuldades no dia-a-dia,” alerta.

Em 2015, adianta Fabiano, a homenagem será para as mulheres negras. “Vemos diversos afoxés dispensando a presença das mulheres. Acreditamos em forças complementares. Homens e mulheres devem contribuir juntos pela manutenção da cultura negra, no sentido de salientar a importância disso”. Ele destaca que as homenageadas são mulheres pernambucanas que contribuíram na área da educação. “O afoxé Alafin Oyó homenageará esse ano as professoras Martha Rosa Queiroz, Inaldete Pinheiro e Lúcia dos Prazeres. Elas são mulheres negras que se dedicaram para disseminar seus conhecimentos e são mestras na arte de educar. São orgulho não só para o estado de Pernambuco mas para todo o movimento negro,” emociona-se.

Blocos Afros – Os blocos levantam essencialmente a luta contra o racismo pela valorização da identidade negra. Caracterizam-se não só pelo espetáculo apresentado nas ruas mas também pela promoção de ações educativas e de formação profissional para além da folia.

A cultura não deve morrer – O bloco Akomabu foi o primeiro bloco Afro do Maranhão e completa, em 2015, 31 anos de existência. A palavra, também de origem iorubá, significa a cultura não deve morrer. Nesse sentido, o coordenador do Centro de Cultura Negra (CCN) do Maranhão e um dos responsáveis pela organização do bloco, Maurício Paixão afirma que, mesmo após anos, a essência do Akomabu permanece. “Mantemos a tradição do grupo por meio das vestimentas, da dança, das músicas no sentido central de valorizar a cultura negra. Nosso objetivo principal é mostrar a situação do negro no país e dessa maneira conscientizar para a realidade que vivemos”, contou.



Maurício fala ainda sobre a participação das crianças no bloco e a importância de inseri-las no desfile. “Os pequenos fazem parte da alma do Bloco Akomabu. Hoje são 60 crianças que participam dos ensaios, sabem todas as músicas, demostram entendimento sobre a importância de se reconhecerem como negras e levam isso para o seu dia-a-dia. Essa é a nossa verdadeira satisfação,” diz.

Sobre a religião, o Akomabu se caracteriza ainda como um Afoxé tendo em vista a influência da ancestralidade de matriz africana para grupo. “Antes de todos os ensaios, o ambiente é purificado com incenso, representantes de religiões de matriz africana guardam o local e nas paredes, estão as figuras de orixás, como Yansã e Oxossi. Essa proteção nos guarda e nos mantêm suficientemente fortes e protegidos para manter a tradição de colocar o Bloco na rua nos quatro dias de carnaval”, descreveu Maurício.

O Brasil também conhece os blocos afro Ile Ayiê, Olodum, Bankoma, Ylê de Egbá e outros.

De acordo com o diretor do Departamento de Fomento e Promoção da Cultura Afro-brasileira da Fundação Cultural Palmares (FCP- MinC), Lindivaldo Junior a representatividade negra no Carnaval é resultado de um longo processo de descoberta e aceitação da cultura negra. “Existem Afoxés e blocos Afro em todas as regiões do Brasil, o interessante é destacar a riqueza dessas manifestações e valorizar a história de cada uma tendo consciência de que a particularidade deles construiu o carnaval negro que temos hoje”.
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